MISTURA FINA de OS MAMÍFEROS: ensaio para show no Teatro Opinião - Rio, 1978 Arlindo Castro, Mario Ruy, Marco Antonio Grijó, Afonso Abreu e Aprígio Lyrio. | foto Flávio Santos |
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UM POUCO SOBRE OS MAMÍFEROS O meu amigo Nenna me pediu para escrever um pouco sobre Os Mamíferos, considerada a grande banda de rock da contracultura capixaba, no final dos anos 60 e início dos 70. Vou tentar, fazendo isso do ponto de vista do irmão mais novo de Afonso Abreu, um dos seus integrantes mais marcantes. Meu pai, Bolivar, morreu em 1962, quando eu tinha apenas 12 anos; daí meus dois irmãos mais velhos, Afonso e Alvaro, passaram a ser minhas principais referências. Dos três irmãos, eu era o mais tímido e apagado, mais voltado para os estudos. Afonso, um cara muito levado desde criança e um músico nato, representava a minha opção à esquerda; já Alvaro – aluno aplicado voltado para as ciências exatas e grande esportista (nadador, mergulhador, velejador, jogador de frescobol) – representava minha opção à direita. Assim, eu me dividia entre essas duas vertentes: tentei aprender a tocar violão e acabei fazendo algumas músicas, tal como Afonso, e, assim como Alvaro, fiz engenharia e mestrado e, não tão bem quanto ele, nadei, mergulhei e velejei. Naqueles tempos, Vitória era uma cidade pequena onde todo mundo se conhecia. Vivíamos na então Praia Comprida, que junto com a Praia de Santa Helena, foi incorporada pela atual Praia do Canto, que ia somente da pedra do Cruzeiro até o canal que circunda a ilha, antes da praia de Camburi. Morávamos numa casa simples, mas confortável, no nº 56 da Rua Madeira de Freitas, onde hoje funciona um restaurante. No fundo do quintal, além do quarto da empregada, havia outro, que foi o ponto de encontro e ensaio d´Os Mamíferos; isso deve ser creditado à paciência e tolerância da minha querida mãe, Anna Graça, mais conhecida por D. Gracinha, que Alvaro acha que foi meio que mãe de todos. Eles eram sete caras que, a partir de 1967, resolveram fazer algo diferente naquela pacata ilha, que era uma delícia, como dizia a jornalista Carmélia de Souza, presença constante lá em casa. O nome do grupo veio da música Os Mamíferos (“Olha as vitrinas se acendendo para você/anunciando o que não vai acontecer”), de Rogério Coimbra e Arlindo Castro. Os dois e Marco Antônio Grijó tinham as maiores e mais refinadas discotecas, voltadas principalmente em jazz e bossa-nova. Fui um privilegiado por ter à minha disposição tanta música de qualidade. Afonso acabava levando tudo lá pra casa. A gente ouvia música o dia inteiro, com a eletrola tocando sem parar os LP´s de 33 rpm, a mídia da época. Assim, fiquei intimo dos sons de Miles Davis, David Brubeck, Thelonius Monk, Bill Evans, Chet Baker e outros do jazz, e de muita bossa-nova, começando pelos trios - o Tamba, o Zimbo e o Sambalanço –, passando por Tom, Vinícius, João Gilberto, Elis Regina, Nara Leão, Maria Betânia, entre outros. The Beatles e Rolling Stones, sim, mas Roberto Carlos e Jovem Guarda nem pensar... Estes últimos não tinham vez com o grupo, nem com todo o pessoal adepto da chamada MPB. Afonso tinha começado a sua vida musical como cantor, interpretando Al di La, tema do filme Candelabro italiano, na Festa do Galo, no Praia Tênis Clube, no natal de 1963. Depois, formou um trio com Jorginho Saad no piano, Mário Ruy na bateria e ele no contrabaixo. Com a chegada a Vitória de Marco Antonio Grijó, vindo de Santos, onde já tocava bem bateria, Mario Ruy passou a ser o guitarrista da nova banda que estava surgindo. Gozado que o rock não era o forte daquela turma, mas acabou sendo servindo de base para a maioria das composições do grupo, que passou a contar com mais dois integrantes: Sergio Regis, poeta e letrista, amigo e parceiro de Mário Ruy, e o então menino Aprígio Lyrio. Digo menino, por que ele deveria ser da minha idade, e, assim, era uns três anos mais novo que Afonso, o que naquela idade fazia toda uma diferença. A música tem o poder de fazer com que os músicos se atraiam feito imãs, como diria o Caetano. Um bom exemplo disso foi o caso de Aprígio: um cara muito fino e educado e bem vestido que gostava de cantar acabou se juntando àquele grupo, digamos, alternativo, e representante da rebeldia capixaba naqueles tempos de tantas mudanças. A tal Revolução de 31 de março de 1964 (que já nasceu falseando no seu nome, pois foi feita na verdade no dia 1º de abril, dia da mentira) estava no ar e em tudo. E recrudesceu geral no final de 1968, com a emissão do AI-5, mostrando que a ditadura estava ali em cada esquina (como dizia Belchior), inibindo qualquer tentativa de mudança. Num âmbito maior, reinava a Igreja Católica, impondo seus dogmas, princípios, sacramentos e mistérios, sob pena arderem no fogo do inferno todos aqueles que os afrontassem ou que fizessem um só pecado mortal. A virgindade e outros tabus sociais sobre o que seria o certo e o errado regiam o comportamento das pessoas naquele mundo conservador do final dos anos 60. Mas as mudanças avassaladoras vinham de todos os lados. No mundo, os comportados The Beatles do início dos anos 60 se transformaram nos inovadores do Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, enquanto que Rolling Stones, Bob Dilan, Jimi Hendrix, James Joplin e o movimento hippie pressionavam por alterações nos rumos da prosa do sistema, com seu ápice acontecendo como Festival de Woodstock, em 1969. Além disso, a pílula anticoncepcional e a chegada do homem na lua, eram exemplos de que tudo apontava para o novo. No Brasil, o movimento tropicalista, liderado por Caetano e Gil, e os Mutantes também balançavam as estruturas. E em Vitória, tínhamos Os Mamíferos, que afrontavam a ordem estabelecida, com seus cabelos grandes, roupas e músicas irreverentes, com letras metafóricas e herméticas, feitas assim para terem mais chances de serem aprovadas pela censura da Polícia Federal. Eu era um fã incondicional de Os Mamíferos. Além dos ensaios no quarto dos fundos lá de casa, ia a todos os seus shows. Perdi, porque estava de cama, com hepatite, o que fizeram no nosso Woodstock capixaba, o Festival de Três Praias em Guarapari, no verão de 1970. Lembro-me de alguns shows memoráveis, como os feitos em casas noturnas em Nova Almeida e na Praia da Costa, na boate Macumba. Mas as apresentações de maior público foram as dos festivais de música em Vitória. Lembro-me de uma histórica, acredito que no festival universitário de 1969. Estavam todos fantasiados e com as caras pintadas, fazendo um maior som pauleira, quando, de repente, adentra no palco uma figura estranha e inusitada: era o Jack Palance, militar aposentado amigo da banda, vestindo um sobretudo enorme e arrastando pesadas correntes pra lá e pra cá... Realmente, ninguém entendeu nada, mas era isso mesmo que o povo queria: não entender nada... Em busca do sucesso, os Mamíferos foram passar alguns meses no Rio de Janeiro, onde procuraram mostrar o seu trabalho; mas não conseguindo se firmar por lá, retornaram à nave mãe uns seis meses depois. Algumas das músicas mais marcantes do grupo foram feitas nessa passagem pela terra carioca, tais como Corina (“colírio nos olhos atentos, quebra seu espelho”) e Mônica (“Mônica, Verônica, atômica, atônita”), de Afonso, Antonietta (“arranque a maçaneta dessa porta que lhe fecha”), de Rogério, e Tanto tempo, que fala dos “Jardins de Alá e acolá”, de Arlindo. Agite antes de usar (“pra botar o mal pra fora”), de Mário, Aprígio e Sérgio, foi o maior sucesso oficial da banda, ao conquistar o primeiro lugar no, se não me engano, festival da canção capixaba de 1969, com grande interpretação de Aprígio. Outra música marcante - acredito que, também, dos três - é Nuvens que passeiam (“nuvens que passeiam, flocos que brincavam”). Outras composições lindas de Afonso feitas enquanto Mamífero são Via Aérea (“a minha mensagem é via aérea, que vide versos poderão encontrar”), Manuela (“minha bandeira colorida pra enfeitar as avenidas, pra enfrentar as avenidas, sorria antes de chorar”), Carrilhão (“eu vou contar pro firmamento, que eu tenho uma praia aqui por dentro, um acaso sombrio”) e Namorada sem calçada (“vou te contar o meu sorriso”). Os Mamíferos não tiveram uma morte morrida, definida no tempo. Seu fim, no início dos anos 70, foi tipo Lavoiser: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma... Primeiro, passaram a se chamar Bandônica, se apresentando assim no festival da canção em Cachoeiro. Afonso, em 1974, fez, no Teatro Carlos Gomes, o show Ponte da Passagem com o grupo; depois passou a fazer muitas músicas com Paulo Branco. Em 1978, o grupo, já usando o nome de Mistura Fina, fez um show histórico no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, que talvez tenha sido o último que os cinco que tocavam e cantavam (Aprígio, Mário, Afonso, Arlindo e Marco Antônio) atuaram juntos Infelizmente, dois d´Os Mamíferos já se foram. O primeiro a partir foi Aprígio, no início dos anos 80, numa crise pessoal; depois, seguiu Arlindo, já nos anos 90, por problemas cardíacos, quando era professor de Comunicação da UFES. Afonso e Marco Antônio continuam tocando juntos até hoje - no Afonso Abreu Trio -, numa cozinha musical (baixo&bateria) de respeito, há nada menos que 44 anos, sempre brigando e se reconciliando... Rogério Coimbra, que continua devendo um CD com suas lindas composições, se dedicou a registrar a música e cultura capixaba, através do seu blog “Música nas alturas” [ http://musicanasalturas.blogspot.com/ ]. Afonso, Grijó e Rogério trabalharam todos esses anos, até se aposentarem, na Secretaria de Cultura do Governo do Estado do ES. Mário Ruy, aposentado da Vale, continua firme, ora como baterista, ora com guitarrista, tocando em diversas formações na noite capixaba. E Sérgio Regis, continua por aí, fazendo poesias e letras musicais. Recentemente Murilo Abreu, filho de Afonso, também contrabaixista e muito parecido com o pai, dirigiu o show Aurora Gordon, que reapresentou composições d´Os Mamíferos, e de outros grandes nomes da época: Chico Lessa, Atílio Gomes (atual Nenna), Paulo Branco e Ester Mazzi. Por outro lado, temos Gabriel Ruy, filho de Mário, desponta com um grande baterista e guitarrista, tal como o pai, e Léo Grijó, filho de Marco Antônio, contrabaixista, mas atualmente é bom produtor musical em Sampa. Com se vê Os Mamíferos não acabaram; eles nos deixaram suas músicas e se procriaram por aí... Claudio Abreu Rio, 26 outubro 2011 imprimir | contato: taruart@gmail.com |