18 outubro 2011

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Aprigio Lyrio...
foto divulgação |



... e Os Mamíferos: Mario Ruy, Marco Antonio Grijó e Afonso Abreu
foto divulgação | 2º Festival Capixaba de Música, 1969



OS MAMÍFEROS, O TEMPO E A MORTE

Que o tempo é o oposto da morte é um fato. Não há mais tempo na morte. E a vida é toda tempo. Tudo na vida gira em torno do tempo. E é ele que com seu passar traz justiça ou castigo. E dá ao homem o que ele só pede a Deus. Enquanto há tempo, tudo pode mudar.

Quando o Aprígio Lyrio caiu da janela, seu tempo esvaiu-se. Ele não mais veria as horas passando e lhe trazendo marcas ou cicatrizes ou qualquer outro tipo de dano. Nem a calma ou a serenidade de quem vive muito. E só em memória ele voltaria ao nosso tempo. Foi assim que aconteceu quando o Murilo Abreu (baixista do Solana) me falou sobre ele, me mostrando um vinil com registros diversos e contando sobre sua morte misteriosa e sobre um grupo do qual ele participava, Os Mamíferos.

Meu fascínio pela história do Aprígio foi instantâneo. Eu que acabara de sair de uma clínica, por apresentar tendências suicidas e fraquezas do gênero, via na história dele, algo muito próxima à minha. E com minha curiosidade só veio mais mistério. E isso só me fascinava mais.

Para entender mais sobre o Aprígio, Murilo me contava história dos tempos dos Mamíferos, banda formada em Vitória nos anos 60 pelo seu pai Afonso Abreu e os amigos Marco Antonio Grijó e Mario Ruy. Eles formaram um trio de baixo, bateria e guitarra, que serviu de base para inúmeras peripécias artísticas e musicais, que hoje é tida com a pedra fundamental da história da cena alternativa do Espírito Santo.

Ouvi muitas histórias dos próprios, sobre seus feitos e também sobre amigos como Rogério Coimbra, Arlindo Castro, Nenna, Rubinho Gomes, Chico Lessa... Sobre o fato de terem usado maquiagem nos shows antes dos Secos e Molhados, dos festivais cheios de competições e alegrias, de toda essa atitude que hoje em dia já virou clichê no meio juvenil e de como tudo isso ficou pra traz com o tempo.

Recentemente, todas essas histórias voltaram aos palcos de Vitória. A convite do Murilo Abreu (outra vez ele) me vi vagando pelos corredores escuros do Teatro Carlos Gomes (o mesmo teatro que muitas vezes foi palco dos mamíferos) relembrando as histórias contadas e principalmente Aprígio Lyrio. A morte havia dado a ele algo místico, algo que o colocava fora de todo esse cotidiano que nos cansa. Eu podia afirmar que ele também vagava naquelas escuridões comigo. E que poderia ser sentido por todos ali. Nas músicas, nas fotos projetadas, nos poemas cantados.

No fim de um desses shows, vi o Afonso Abreu carregando caixas e mais caixas. Afonso está na ativa até hoje, envelhecido, carregando suas rugas, sua barriga já crescida, o mesmo sorriso sacana das fotos antigas, a mesma inquietação... No entanto, o Aprígio era o grande homenageado, dominando o telão com suas fotos e levando todas as homenagens da noite. Afonso havia composto mais que ele, cantado quase tanto quanto ele, e vive até hoje sua poesia de fazer música. Mas agora estava ali, carregando os restos da homenagem ao amigo. O tempo é o posto da morte? Pensei. Viver não traz a grandeza? É isso? Não há o que se celebrar nos vivos? Nos que não sucumbiram à memória luxuosa da morte? Aprígio caiu ou se deixou cair? Agora isso já não importava. Ele está morto para o tempo e nascendo para nossa memória. Memória e carinho estes que eu me pergunto se lhes serve ao menos como oração, se ao menos o alcança. Enquanto Afonso Abreu, Marco Antonio Grijó, Mário Ruy e tantos outros simplesmente vivem.

j. gauche
16 outubro 2011



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