26 outubro 2011

magali.rencien@live.fr


A Longa História
ilustração da capa do livro de Reinaldo Santos Neves |



UM LIVRO, UM AUTOR E EU!

Quando recebi, da amiga Karina Fleury, o “paralelepípedo” entre as mãos, eu retornava da guerra, lá na China dos anos 60, onde o senhor Verissimo me tinha cativado com O prisioneiro. E como era a última leitura que tinha sobrado ao meu redor, um pouco desamparada por estar em falta de livros para ler, confessei meu vício para Karina que me prometeu remediar.

Eu viajo muito. Também viajo nas viagens. E além da minha história vivida vivendo, tem todas aquelas que me unem aos outros vivos. E há as histórias que esperam por mim ou por alguém especial, para existir. Essas viagens vão se realizando somente quando eu decidir. Quando abro o livro e pronuncio, mental e fisicamente, as palavras numa ordem inventada por um ilustre desconhecido, então logo a viagem, a história começa. É meu poder. No momento em que paro de ler, a história para, o navio para, o trem para, o Grimm para também, tudo fica esperando por minha volta. É meu poder. Eu leio. Muito!

Cedo me iniciei nesse rito triangular: um livro, um autor e eu. Mas para exercitar e saborear esse poder, é preciso ter algo que me faça existir... algo de bom, inteligente, refinado, apaixonante, rico, interessante, misterioso, engraçado... algo que valha a pena. Assim, quando recebi essas 600 páginas, fiquei feliz e curiosa: quem pretende me levar durante 600 páginas? Um capixaba, avisou-me logo minha preceptora: é Reinaldo Santos Neves, o escritor.

É uma longa história. É A longa história. Nada menos pretencioso. E ela é longa! Agradeço-lhe, monsieur Santos Neves, por essa viagem iniciada em terra minha, numa época querida: uma viagem à Europa da Idade Média.

Logo surgem na minha mente o ambiente particular traçado por Umberto Eco em O Nome da Rosa e as lembranças das primeiras leituras de Chrétien de Troyes, contando as aventuras de Lancelot e do rei Arthur. A Idade Média é um tempo de relação intensa entre pragmatismo e espiritualidade, tudo religioso. É o tempo da escritura. Aqueles copistas que propagaram a “boa notícia”, manuscrita e lida três vezes, recebem minha atenção especial, nesses dias em que o livro se torna tablet e que os Estados Unidos “estão proibindo” a escritura cursiva em favor do uso do teclado e das maiúsculas. Com o tempo passando e o progresso andando, talvez meus netos nem saberão mais o redondo do “o” e as ondas apertadas do “m” feito a mão. Muito suor foi assim gasto para que nós tenhamos os registros da nossa história. Entre lendas e fatos históricos, a Idade Média passa o tempo em debater religião.

O autor de A longa história nos principia nessa vida de questionamento espiritual, colocando-nos num monastério tradicional, numa província tradicional, da Idade Média, para acompanhar as aventuras de um jovem noviço copista. Já dentro do monastério, fica claro que não vai ser mais possível deixar a aventura. RSN, de uma maneira hábil, astuciosa e talentosa, nos leva a viver a sua longa história.

Páginas após paginas, criei o Grimm e compartilhei com ele e com os outros da Fábula tantas coisas, tantas aventuras. O inventor - et quel inventeur ! - dessa história tem muitas flechas em seu arco: as descrições detalhadas da arquitetura, o uso de citações e versos em latim, o relato dos costumes dos monastérios e da vida cotidiana. Tudo isso, que nos insere de fato no ambiente, juntamente com a narração dos sentimentos e dos momentos de introspecção dos heróis, formam um quadro sólido para as aventuras de uma busca, como nos adverte, logo no início, o narrador: “nada mais que mais uma história de busca”.

Com o pretexto de procurar uma longa história, RSN inventa uma fábula recheada de histórias e de História. Ele parece dar autonomia a seus personagens e a ficção nos convida a nos tornar o eixo da situação. Ler um livro de RSN- e já devorei alguns outros: As mãos no fogo: romance Graciano (1984); Suely: romance confesso (1989); A folha de Hera: romance bilíngüe (2011)-, faz-me viva, pois os seus narradores, ao me colocarem em cena, me fazem saber que eles sabem que eu existo... eu, leitora!

Magali Rencien
2011


livros citados:
O prisioneiro, Érico Veríssimo, 1967
Lancelot ou le Chevalier de la charrette, Chrétien de Troyes, 1175-1181
Il nome della rosa, Umberto Eco, 1982
A Longa História, Reynaldo Santos Neves, 2006



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