ALÉCIO DE ANDRADE Museu do Louvre, Paris, 1993. Em exposição no Museu de Arte do Espírito Santo, novembro de 2011.
ORLANDO DA ROSA FARYA: Mostra Counspectus, 2007 MAES - Museu de Arte do Espírito Santo | foto Divulgação |
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DA IMPLICÂNCIA À EMOÇÃO ESTÉTICA O hábito é a contemplação de alguma coisa. No verdadeiro sentido da palavra, "hábito" é contemplar. O que ele contemplava em seus passeios? Não sei. Os meus hábitos... Sim, sou cheio de hábitos. Meus hábitos são as contemplações. Eu saio para contemplar. Às vezes, são coisas que sou o único a ver. Este seria um hábito. Gilles Deleuze – O Abecedário Deleuze, letra K de Kant. Existe algo que me parece essencial à relação espectador – obra. A implicância. O espectador, aquele que vê, observa, precisa de um certo grau de implicação, de dedicação, de vontade. Caso contrário, o momento único, pessoal e intransferível que acontece no estabelecimento de conexão entre espectador e obra fica longe de se realizar. Ainda que em sua poética Hélio Oiticica nos diga de algo “para ser encontrado”, a reação, o que fazer com o deflagrador do encontro – a obra – é o que talvez diferencie a existência ou não deste momento único. Em busca deste momento, deste encontro ás vezes fortuito, por outras muito esperado, é que se desbravam dois artistas brasileiros. Um, Orlando da Rosa Farya teve em 2007 sua obra como parte da exposição Conspectus; o outro, Alécio de Andrade, está em 2011 com exposição em cartaz também no Museu de Arte do Espírito Santo – Dionísio Del Santo. Como caçadores, Alécio e Orlando espreitam em busca, não da excentricidade dos sujeitos que vivem em seus retratos, mas, do momento-ação da descoberta, do encontro, da emoção estética. Não. Muitas, muitas vezes não são afortunados em sua caçada. Em meio à máquinas fotográficas, flashes e japoneses o tal momento perde seu lugar como busca e processa o êxtase de uma relação midiática entre sujeito e obra, muitas vezes, mediada pelo mesmo écran que temos em nossa casa. Ou seja, me desloco da minha residência, muitas vezes do meu país e vou ao museu para ver uma imagem, não uma obra. Aliás, para ver a mesma imagem que já estava lá, guardada nos meus backups, silenciosa e sem importância, ela receberá agora uma amiga-gêmea, a imagem então capturada da “obra real” que trará consigo nada além de sua imagem mesma. Da implicância então necessária à emoção estética, as lentes de Alécio e Orlando capturam talvez muito mais do que isso. Capturam justamente essa transformação da obra em imagem. Capturam o desleixo – muitas vezes positivo – do espectador com a obra. Ao passear pelas obras e pelos espectadores do Musée du Louvre por meio das lentes argutas de Alécio, nos deparamos com os mais diferentes tipos e as mais diversas posturas. Entra aí outro ponto da nossa implicância, o não desejo dela. O passeio cansativo, que ás vezes nos faz tirar os sapatos, deitar livremente nos bancos ou mesmo mostrar um jornal, que parece ser mais interessante do que as próprias obras ali exibidas. A catarse coletiva manifesta pela contemplação de uma obra secular, pelo desejo de se aproximar dela, foi apresentado nas obras de Orlando da Rosa Farya, em 2007. Farya envelopa a arquitetura do Maes com painéis e vitrines onde uma multidão se apinha em frente à obras como La Gioconda ou A Vitória de Samotrácia. Interessante aqui é perceber a distinção das visões, enquanto Alécio apresenta em sua maioria o momento singelo de encontro, Orlando prefere os montes de turistas, a mistura dos corpos, a luta pelo consumo da cultura. Ao trazer todo este universo para as paredes externas do museu, Orlando da Rosa Farya descama, desvela as estruturas intrínsecas dos museus, a lógica de sua existência, em especial de um centro de peregrinação como o Museu do Louvre. Alécio de Andrade e Orlando da Rosa Farya, com uma delicadeza aguda, apresentam muito mais do que as características do público dos museus europeus, no caso especial o Museu do Louvre. Ambos nos levam a questionar a hegemonia da cultura ocidental que impele à multidões uma peregrinação sagrada, na busca de alcançar uma fruição pretensamente universal, de obras que pretensamente representam a unidade da cultura ocidental. A implicância, aqui, é convertida no desejo de experimentar as potencialidades que a história ou a imagem daquela obra podem produzir em conjunto a toda a estrutura apoteótica e deslocadora de um museu como o Louvre. Os índices do presente são colocados aos poucos, nos extintores, telefones ou na profusão de câmeras digitais. Assim, Alécio e Orlando me questionam sobre a implicância velada, ás vezes explícita, da condição do espectador e do consumo de arte e cultura na sociedade contemporânea, e talvez nos indiquem algo importante, que nem o momento singelo e solitário, nem a multidão agrupada, sozinhas garantem a efetivação da emoção estética. Melina Almada Sarnaglia Mestre em Teoria e Crítica de Arte - Estuda as pertinências do termo espectador na contemporaneidade. imprimir | contato: taruart@gmail.com |