'recorte de jornal' | A GAZETA |
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Um Balão Mágico, uma Usina e os estudantes baderneiros... O convite para a exposição do acervo da Galeria Usina chegou em minha casa, vi e pensei em ir, embora não tenha prestado atenção à data e ele acabou ficando lá, em cima da estante e eu correndo feito louca nas últimas semanas. No entanto, ele levantou uma poeirinha de memória e ultimamente as lembranças andam me rondando. O convite foi umas das pequenas farpas que se insinuaram em minha mente, aumentanto a intensidade das ondas de memória. Então, no dia 24 de maio, vi um post no Facebook sobre a exposição no MAES e comecei uma conversinha com Simone Monteiro e alguns amigos, na qual acabei citando o famoso incidente Balão Mágico na Usina, em que saí em uma foto da Gazeta com uma lata de spray e um círculo ao redor da “arma do crime”. Foi isso ocorrer e o Nenna me ligar. Conversamos sobre o assunto e ele me pediu para escrever um artigo/ensaio sobre o acontecido, algo com um certo tom de memória. E cá estou eu escreveno sobre essa historinha pitoresca do passado da ilha. Logo fui procurar os tais recortes de jornal, mas não tinha a menor idéia de onde estavam, moro em uma casa grande e velha, antiga, de família, a minha família, com mãe, pai, filha, e agora o gato da minha filha, o Anakin. Só da parte que me cabe nesse latifundio, tem atelier, escritório e meu quarto, com gavetas, armários, estantes, livros, pastas de desenhos, de documentos,de fotos, então imagina procurar algo nesse labirinto... Tinha uma vaga lembrança de onde poderia estar a foto, a tal com o círculo em volta da “arma do crime”, a lata de spray, e aí comecei a procurar, a revirar gavetas e todas as pastas arquivadas com velharias, das quais minha filha, quando eu morrer, provavelmente fará uma grande fogueira no quintal... Depois de muito revirar as coisas, a bagunça se avolumando em cima da cama e nada, até que lembrei de uma pasta dá época da faculdade, onde guardo de históricos a outros documentos e finalmente encontrei, só não tinha o cabeçalho com a data da matéria, mas deixo isso aos aficcionados por dados, na época eu estava mais interessada em viver do que em registrar... Porém, esse desinteresse também fez com que momentos memoráveis sumissem pra sempre na poeira dos sonhos e na ficção da memória, como este momento especial que quase sumiu, não fosse por uma uma exposição de acervo de uma galeria e por uma coisa chamada Facebook, esse lugar virtual, onde nos encontramos todos os dias pra falar de tudo: dos outros, de nós, pra falar mal dos que nos fazem mal, das práticas autoritárias do mundo, pra trocar fotos e informações da última festa ou do último filme que vimos, do último livro que lemos, da última música que nos emocionou, com as pessoas que conhecemos pelo mundo... Se não fosse por este lugar virtual - quase uma gigantesca praça de infinitas possibilidades de encontro e relações - esse escrito talvez nunca viesse a existir e a pequena história iria pro limbo das histórias pitorescas e eu talvez nunca desse a minha versão dela, a não ser em uma mesa de bar, entre amigos, rindo muito de mais uma anedota de um tempo distante na memória dos moradores da ilha. Pois é, mas até que a praça virtual está calma hoje, dia 11 de junho, quando escrevo esse texto, pois as últimas semanas foram quentes e, acho bom de uma forma bem egoísta, pois eu tenho que me concentrar no meu filme, estou na pré-produção e filme é filme, tem que mergulhar, tem que ver o filme na sua cabeça milhões de vezes, até que a coisa se solidifica e se ter certeza que aquilo tudo que você imaginou é a vida mesmo, mas sabendo sempre que a certeza não dura até a segunda hora de filmagem, é foda... Isso me lembra que a época do “crime” cultural da Usina é a mesma época que a personagem principal do meu filme busca na memória em uma tarde no centro da cidade, a mesma época em que ela mergulha no meu Vento Sul, que não é o da Carmélia, é o meu mesmo, o vento sul de Saskia Sá, aquela que não acredita na delícia da ilha e mostra isso no seu filminho guerrilha. Mas não importa, o que importa aqui agora é uma foto de um outro tempo, uma foto que mostra o quê afinal? Olhando pra essa janela no tempo, sei apenas o que vejo e imagino o que aconteceu na ficção de passado que construo como se fatos passados pudessem ser trazidos de volta à ficção do presente na imaterialidade de uma foto no suporte material de um amarealado e rasgado recorte de jornal, tal qual relíquias arqueológicas em uma escavação. A foto mostra uma garota de 20 e poucos anos. “Ela” sou eu, ou era, ela está com um vestidinho xadrez e eu lembro que ele era verde e vermelho, usa ainda uma leging preta e botinha também preta e um chapéu coco preto. Os que gostam de associações fáceis vão logo pensar que, porque eu faço e amo cinema, deva ser uma homenagerm a charles chaplin, mas tem muito mais a ver com Laranja Mecânica... Dentro do espírito Kubrick de ser, fui chamada até de terrorista e essa foi realmente a melhor parte, pois na mesma época, teve um grupo que roubou alguns quadros (acho que de Picasso), em um museu na Holanda apenas para se manifestarem, eram um tipo de terroristas culturais. Eu não lembro pelo que eles estavam lutando ou para qual causa libertária estavam tentando chamar atenção, mas lembro que tiveram minha simpatia, como continuam a ter. Vejo também que meu cabelo era curto, da cor eu não lembro, pois mudava toda semana, o que era um grande choque pra pequena cidade, eram outros tempos, hoje ninguém se assuta ao ver uma pessoa de cabelo azul, ou verde, ou quase ninguém... Eu e a equipe do filme temos lembrado muito desse tempo, de uma vitória quase primitiva. Éramos protagonistas alucinados do desejo pelo novo, pelo vento sul que não vinha nunca e não nos trazia os novos ares da tão falada (já naquela época) pós modernidade pra nossa sonífera ilha. Queriamos que o futuro viesse pra romper as barreiras nas quais vivemos durante os mais de vinte anos de ditadura, na qual nascemos. O que chegava aos nossos olhos e ouvidos era quase nada, ainda mais vivendo em nossa pequena ilha no atlântico sul, cercada de preconceitos e conservadorismo por todos os lados. E eu ansiava pelos picassos movendo-se por londres, como dizia a canção... E agora, faço um filme, um curta, onde a protagonista retorna pra essa mesma cidade, anos após ter partido e a encontra tão igual e tão diferente, tão velha e tão nova, cheia de cicatrizes, como ela mesma. Uma cidade que sempre lhe negou o acesso ao conhecimento e à livre expressão, uma cidade que tentou matá-la criativamente de todas as maneiras, e quase foi vitoriosa nisso, como o foi com inúmeros brilhos que se apagaram muito cedo, derrotados e desiludidos, sós e abandonados por uma cidade pela qual tanto se doaram. Essa mulher foi e voltou, talvez um pouco como eu, mas eu não fui, eu não voltei, eu continuo aqui. No entanto, agora sou do mundo, sou da vida, sou do vento sul... Da cidade, levo os amigos e a história que aqui gestei. Levo imagens de coragem como a daquele dia, levo todas as lembranças daquele balão, o mágico, do grupo de teatro édem dionisíaco, dos rocks na lama, das festas e das exposições, dos shows dos amigos, dos sambas, dos morros e dos botecos espertos nas esquinas escondidas. Levo a lembrança de pedalar em camburi, de passar o dia na praia, de fazer arte e fazer a cidade, de fazer cinema, de ensinar e aprender, das sessões cineclubistas na universidade, dos inferninhos e de romper barreiras. Ainda bem que vitória me negou acesso, pois hoje sei como brigar por acesso à cultura, à arte, à produção do conhecimento, à informação... E não to falando só de acesso à recepção, mas sim de de protagonizar e construir junto. Hoje sei o quanto o mundo é grande e como eu posso ser também do tamanho desse mundo, do tamanho da rede que conseguir espalhar por todos os seus pontos interligados, por todos aqueles que lutam por acesso, pelo direito de falar, de criar, de pensar, de agir com liberdade, todos aqueles que lutam nos movimentos ao redor do planeta, dos acampados, dos indgnados, dos libertos, dos maconheiros, dos estudantes, dos baderneiros, dos que anseiam. E sei que estamos vivendo um momento único, daqui a pouco teremos a real dimensão de todas essas tentativas de criar mundos novos, de criar uma nova desordem, mesmo que em breve tudo seja abortado pelo sistema que sempre se reformula e cria novas formas de se mascarar à frente da crua onda que varre o planeta e se espalha por todas as redes que sabem que a voz não mais tem dono, então vamos usá-la com o poder da imaginação e da solidariedade. Então, quando vejo aquele recorte de jornal e lembro de muito mais do que das roupas que usávamos e então, conto pra equipe do filme - quase toda mais nova do que eu - que em vitória a história não era “new wave”, a história era muito mais hard. Estava mais pra um certo ar dark beat tropical, pois a gente até ia à praia, mas era escuro nosso horizonte e nebuloso nosso futuro... E era muito difícil manter uma roupa de uma cor só, ou a integridade de paredes brancas, nossos grafites eram vistos como depredação do patrimônio público, das virginais paredes da universidade federal, que deveriam permanecer intocadas, ai ai... Mas fazíamos acontecer, como ainda fazemos, pois em vitória e em todos os lugares, nada vem pronto, não praqueles que não estão satisfeitos com as migalhas distribuídas tão parcamente para os que não estão no topo da cadeia alimentar, no topo das coberturas, no topo da hierarquia das famílias e coorporações que comandam a dança social, econômica e cultural. E quando vejo aquele jornal, lembro de como lutamos por acesso e espaço, por sabermos instintivamente e depois conscientemente, inteligentemente, que temos direito à informação, à comunicação e a produzir cultura e a ter acesso aos seus meios de produção e difusão. E era por isso que eu estava brigando naquele dia quando tentei “pixar” a parede branca de uma galeria de arte, porque eu imaginei que tinha esse direito, apesar de ser uma galeria “privada”. Então, eu pergunto até que ponto um espaço de arte pode ter um dono? Pois, apesar das elites culturais historicamente terem difundido a idéia de que a arte tem dono, eu contiunuo acreditando hoje, que nem a arte, nem os espaços de arte, tem donos. A arte e toda a produção cultural da humanidade é de toda a humanidade, meu flme é de toda a humanidade, todos os filmes são de toda a humanidade. E é por isso que eu continuo afirmando que sim, sou realizadora, como artista eu crio, mas como ser humano, sou filosófica e conceitualmente cineclubista, pois os filmes são feitos para serem vistos, os livros são feitos para serem lidos, os quadros são feitos para serem expostos para todos e não apenas em catedrais para o consumo de poucos... A arte tem que estar na rua e nas redes, tem que estar acessível para quem quiser usar e abusar. Sempre digo que para se proteger a autoria de uma obra, é preciso expô-la, mostrá-la, usá-la, citá-la, somente assim todos saberão de onde ela veio e quem é o autor. E vendo aquele recorte amarelado de jornal - onde tem uma entrevista do Chalhub que estava lá do lado dos “baderneiros e pixadores”, na qual, em um box ao lado tem uma versão do dono da galeria - eu pensei outra coisa e ri, pois me dei conta de que, até hoje, eu nunca tive voz para falar daquele episódio. Eu, a garota que pegou a lata de spray da mochila do Ernandes e foi lá grafitar uma frase bem singela, até boba, uma homenagem ao pintor que estava em exposição, Jorginho Guinle, que passou o dia com o pessoal do famigerado “balão mágico”. Uma frase que também era uma homenagem àqueles que estavam ali, elegantes, tomando seu vinho e fofocando as últimas da cidade, parecendo a mim que não estavam mesmo ali, que poderiam estar em qualquer outro lugar que não uma galeria de arte. Na verdade, eu nem ia encostar no lindo quadro do artista que demonstrou sensibilidade inédita naquele mundinho artístico elitizado da vitoria ilhota da época. Na verdade, eu lembro muito bem da frase que eu ia escrever: “tudo isso acontecendo aqui e ninguém está vendo...”, mas fui ao chão, jogada pelo dono da galeria, que teve medo de que eu “pixasse” o quadro caríssimo do artista... Mas foi uma noite glamourosa, no melhor sentido da palavra e me rendeu, por muitos anos, a fama de baderneira, aliás, acho que até hoje a cidade me olha meio atravessado, mas sinceramente, eu não to nem aí... Por fim, agradeço ao Nenna, por ter me permitido ter a voz que eu nunca tive em relação a esta história, principalmente neste momento tão forte pro mundo e pra nossa querida vitoria, que apesar de tudo, eu amo... Amo o vento sul, amo a luz do outono, amo andar de bicicleta, amo a cidade que escolhi construir, amo a arte e a força que vem dessa e de outras histórias que rolaram por aqui, amo os estudantes baderneiros, amo meus amigos, amo o que ela fez de mim. Amo acima de tudo, a cidade que me deu minha filha, que foi ao protesto dos estudantes baderneiros com um lindo vestido de florzinha e com uma flor no cabelo. Essa cidade é linda! Valeu Nenna! Ah, praqueles que não sabem o que foi o balão mágico, não vai dar pra contar aqui, mas era um movimento de estudantes baderneiros que nasceu dentro da Ufes e do qual eu me orgulho de ter sido parte atuante e muito baderneira! Em uma outra ocasião, falo mais sobre o assunto talvez em uma mesa de algum bar na lama ou em alguma sessão cineclubista, ou em algum filminho guerrilha de baixíssimo orçamento. Vitória, 22 de setembro de 2011. Saskia Sá [ saskiasa@saskiasa.com.br ] imprimir | contato: taruart@gmail.com |