03 janeiro 2012

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MAURÍCIO SALGUEIRO - 'Polivisão'
acervo: Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio del Santo.



IMAGENS TAUTOLÓGICAS

Resumo: Este artigo analisa as obras da série Polivisões, de Maurício Salgueiro, capixaba radicado no Rio de Janeiro. Embora seja mais conhecido pela ousadia e originalidade de suas esculturas cinéticas, entre as décadas de 1970 e 1990 produziu também montagens que hibridizam fotografia de utensílios de cozinha, planificados e recortados, e a sobreposição, através da colagem, desses mesmos fragmentos de metal. O autor cria assim, imagens se oferecem à visão como totalidades e como tautologias. Palavras chave: Polivisões, Imagens contaminadas, Maurício Salgueiro.

O capixaba radicado no Rio de Janeiro, Maurício Salgueiro, é mais conhecido pela ousadia criativa e singularidade das máquinas cinéticas interativas - que emitem som, luz e movimentos produzidos por artifícios eletromecânicos variados – que foram concebidas por ele nos anos de 1960 e 1970. Construiu, também, a partir daquela última década citada, até mais recentemente, uma série de objetos híbridos de outra natureza, denominada Polivisões, que não foi exposta com a mesma frequência que as esculturas cinéticas, nem mereceu, até então, nenhuma análise específica, permanecendo por essa razão, quase desconhecida até dos especialistas. Mesmo tratando-se de objetos estáticos, as Polivisões pautam-se pela mesma coerência, potencial criativo e viés experimental que o artista demonstrou em toda a sua profícua trajetória. E talvez se possa mesmo afirmar que essas obras traduzem a vontade salgueirana de diversificar a experiência e atualizar sua praxe, sintonizando-a com as gramáticas contemporâneas.

A ação do artista remete de alguma maneira à atitude duchampiana, ao escolher e apropriar-se de utensílios de cozinha em alumínio, desgastados pelo uso e, por isso, descartados: panelas, caçarolas, caldeirões, bacias, escorredores. Eleito o objeto, Salgueiro inicia a sua transfiguração, por meio de cortes e batidas de martelo sobre o metal, visando eliminar a volumetria do mesmo. Leva às últimas consequências o processo de destruição e transformação do utensílio doméstico, reduzindo-o a uma superfície plana. A chapa de alumínio obtida será reutilizada, inserida e ressignificada, a seguir, na criação de imagens, que resultam, paradoxalmente, de uma ação que postula, ao mesmo tempo, destruição e reconstrução, transformação e reordenação, morte e ressurreição.

Ao eliminar a volumetria, as características e a função do objeto, o artista não subverte, no entanto, a configuração original e a identidade visual do utensílio, cuidando, ainda, para interferir o mínimo possível nas marcas da memória temporal impressas na superfície/pele do metal, em decorrência do uso/manuseio ou da ação do fogo: pequenos amassados, riscos, porosidades, chamuscados, resíduos de solda, além de cabos ou alças e os respectivos parafusos que os fixavam. O arcabouço metálico transfigurado e destituído de volumetria é fotografado a seguir, em alta resolução e revelada sobre um campo de papel branco, cinza ou preto, que será colado, sobre um suporte de Eucatex ou de madeira. A imagem fotográfica parece assegurar a nitidez e a especificidade da matéria, ou seja, as nuances tonais do alumínio. As texturas e as ocorrências gravadas e desveladas na superfície metálica da peça são assim visível ou sugestivamente acentuadas, o que amplifica a potência significativa do tempo/memória.

A superfície circular e plana de metal, após ser fotografada é cortada pelo artista, com precisão, no sentido dos raios da estrutura circular gerada, que retira um quarto, um terço, ou mesmo outra fração do todo. Uma das lâminas de alumínio, correspondente à parcela do objeto recortado é superposta e colada, sobre a fotografia, deixando exposta apenas a parcela que foi suprimida do todo, gerando uma totalidade imagética que reconstrói e ressignifica o objeto utilitário, projetado sobre um campo planar. Na próxima imagem, o processo é invertido: a parte que fora retirada do metal é agora colada, obstruindo parte da fotografia, de maneira que se torna possível reconhecer nessas montagens as características icônicas ou analógicas do utensílio doméstico original. São geradas, assim, duas ou mais imagens de um mesmo objeto que ao olho do interlocutor parecem ser idênticas, mas que são na verdade diferentes, quanto à natureza, constituição processual e correspondente alternância do material.

Essa montagem fotografia/fragmento do objeto concreto subverte as peculiaridades técnicas e volumétricas da escultura convencional e mesmo simulando ser uma superfície planar, não o é, pois a espessura e a densidade do metal permanecem. Através desse processo de experimentação, transfiguração, análise, síntese, contaminação de processos e materiais, o pensamento do artista se clarifica e se atualiza, e a idéia estética se formaliza, pela reinvenção, ressemantização e recontextualização de um objeto trivial, em um novo produto visual, cuja gênese remonta à assemblage e ao objet trouvé.

Apropriando-se de fragmentos de objetos e de materiais ordinários, incongruentes e incompatíveis com a pintura, o Cubismo propôs uma visão simultânea das coisas, de diferentes ângulos e a inserção de fragmentos da realidade na arte. Por meio da colagem e da assemblage de materiais heteróclitos, cubistas e dadaístas geraram imagens e objetos, que alargaram as possibilidades poéticas, quebraram o monopólio da pintura a óleo e facultaram às futuras gerações de artistas a realização de emblemáticas propostas criativas: do modernismo à contemporaneidade.

[continua]

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