16 janeiro 2012

erlyvieirajr@hotmail.com



JULIO SCHMIDT - "Jeder tag ist ein geschenk / Cada dia é um presente” foto: Yuri Ayres


CADA DIA É UM PRESENTE

Julio Schmidt refere-se ao objeto decorrente de sua residência no projeto Baustelle (realizado em setembro de 2011 em Domingos Martins) como uma grande paisagem imaginada, no sentido de construção utópica/idealizada que permeia a pintura paisagística até o século XIX. Quando nos deparamos com aquela gigantesca toalha de mesa, composta por pequenos panos de bandeja, caminhos de mesa e outras peças de enxoval em crochê e renda, é impossível não deixar o olhar percorrer as dezenas de assinaturas que se espalham por ela. A profusão de sobrenomes de origem germânica dos moradores da região nos remete a um outro tempo e lugar, num passeio imaginário pela tradição e pelos costumes que marcavam instalação da primeira comunidade de imigrantes alemães no Espírito Santo, em meados do século XIX.

É também um passeio pelas paisagens afetivas do próprio artista, nascido e criado na região e também oriundo de uma dessas famílias. O simbolismo da toalha vem de uma tradição germânica, em que parentes e amigos costumavam assinar toalhas em datas comemorativas, homenageando aniversariantes, em sinal de estima. E essa tradição está bastante presente na história pessoal de Schmidt, uma vez que, no aniversário de 80 anos de sua bisavó Margareth Ellert Schmidt, a toalha utilizada na comemoração foi assinada por todos os visitantes – feito repetido também no 90º aniversário, sendo que o artefato desta última celebração encontra-se exposto na Casa de Cultura de Domingos Martins.

Daí o trabalho (denominado Jeder tag ist ein geschenk – em português, “Cada dia é um presente”) constituir-se de uma busca, ou melhor, de uma espécie de reunião: durante a semana em que ocorreu a residência artística, Julio foi atrás dos descendentes de algumas famílias tradicionais da cidade, para recolher assinaturas e também compartilhar de suas memórias, registradas nos depoimentos do vídeo-documentário disponibilizado no site do projeto. Como uma espécie de troca de presentes e afetos, ambos (artista e moradores) são convidados a deixar seus vestígios na história pessoal uns dos outros, retomando o próprio sentido de uma comunidade imaginada, retomada a partir da empreitada de se resgatar aqueles que transmitiram a Schmidt uma série de costumes tradicionais durante sua infância e adolescência.

Todavia, não se trata de uma busca por uma “pureza” originária: muito pelo contrário, o trabalho de Julio quer justamente assumir-se como uma superfície onde se registre a escrita palimpsestual que cerca de um século e meio imprimiram a essa tradição, tornando-a um dos vários elementos constituintes de nossa identidade cultural contemporânea. Começa pela própria escolha do suporte – se o crochê foi trazido para o Brasil pelos imigrantes europeus, como técnica artesanal a vestir o espaço íntimo do lar em suas toalhas e panos diversos,hoje em dia sua técnica está espalhada por diversas regiões do país, sob a égide da ornamentação, seja ela rebuscada (em roupas caríssimas feitas a mão pela alta-costura) ou popular – como as rendas nordestinas (principalmente cearenses e pernambucanas) . E essas rendas servem de ponto de partida para o diálogo intercultural que Julio estabelece, uma vez que sua gigantesca toalha de mesa, com quinze metros de comprimento, é formada por dezenas de outras toalhas menores, costuradas entre si e adquiridas no mercado popular do centro de Vitória, bairro em que o artista reside há vários anos.

Se o miolo desses tecidos funcionam como platôs onde cada família se instaura, a partir do ato de assinarem a superfície da grande toalha de banquete, um segundo jogo de hibridismos culturais se faz ao observarmos as assinaturas, que revelam uma série de transformações incorporadas ao longo dos anos, como os sobrenomes portugueses agregados aos de origem germânica e, em alguns casos, até mesmo substituindo-os. Se isso traduz uma certa miscigenação cultural tão característica da formação do povo capixaba, é também uma forma de se instaurar pontes simbólicas entre o passado e o presente desse imaginário cultural em comum que permeia os envolvidos no processo.

Não à toa, a própria apresentação do resultado da pesquisa insere-se nesse espírito de comunidade. Após o culto matinal do domingo, na Igreja Luterana (em torno da qual as famílias originárias fixaram suas residências), todos foram convidados a comparecer ao pavilhão anexo, em que a obra estava exposta, e participar de um lanche, no qual foram servidas iguarias típicas da região (geléias, pães, creme de queijo com nata). Neste momento, todo e qualquer visitante poderia assinar a toalha, ampliando seu caráter coletivo e aproximando-a do contexto presente daquela população. Aliás, nela não existem bainhas nem bordas, o que permite sua futura ampliação, caso assim a comunidade ache necessário.

Se esse tipo de dimensão coletiva/interativa é uma novidade no trabalho artístico de Julio Schmidt, ele todavia está embebido num diálogo entre o artesanal e o cenográfico que sempre passeiam por suas obras. A influência da “rotina de atelier” está presente na etapa posterior do trabalho, em que cada assinatura serve como rascunho para que o artista possa bordar, nome por nome, com linha colorida. É uma espécie de acabamento que traduz todo um processo de inscrição de afetos na superfície do objeto e de sua capacidade de evocar memórias: se o crochê historicamente é uma técnica capaz de produzir peças decorativas e vestimentas que durem “para toda a vida”, muito de sua dimensão simbólica vem do toque e da troca de calor corporal que decorrem do manuseio do artesão durante esse processo, com seu olhar atento e minucioso.

E esse olhar da minúcia, do detalhe, da atenção ao sussurro sempre esteve presente no modus operandi de Julio Schmidt. Isso pode ser observado desde as peças aparentemente cenográficas, produzidas em diversos momentos de sua carreira, em que transborda uma certa obsessão do artista em ocultar seu traço sob uma aparência gráfica, até as recentes intervenções mínimas e quase silenciosas nos espaços – como os interruptores, ralos e tomadas sutilmente dispostos no segundo andar da Galeria Homero Massena, na exposição Instalação e circuito, também decorrente de um processo de residência artística ocorrido em 2008.

E esse processo de troca de afetos é fortemente marcado pelos rastros e vestígios que se deixam ao longo do percurso em Jeder tag ist ein geschenk. Tanto os dos colaboradores, ao imprimirem sua presença e, de certo modo, suas memórias, ao assinarem a grande toalha, quanto do artista, ao apropriar-se delas e novamente percorrê-las enquanto seus dedos executam o bordado – e também do espectador, que é convidado a partilhar desse imaginário riquíssimo em que presente e passado se realimentam. Afinal, reunamo-nos: é hora da troca de presentes.

Erly Vieira Jr



imprimir | contato: taruart@gmail.com