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Entrevista
ROBERTO CORDEIRO da equipe que realizou as primeiras conexões à Internet no ES "Você olhava o mapa da RNP e estava lá o Espirito Santo. Mas, sem grana. Então tivemos de fazer por iniciativa própria." |
A pré-história da Internet no Espírito Santo passa pela Ufes depoimento e foto registrados por Nenna, em 2000, para o projeto "História da Internet no ES" On - Como surgiu a internet em sua vida? Roberto - Na realidade começou com a Bitnet, que existia antes da Internet. Eu comecei a trabalhar na época em que estava na IBM, 91, 92, e naquele tempo a gente começou os primeiros contatos com a Internet, que estava vindo para o Brasil. Já estava no Brasil, mas era uma coisa bem insipiente ainda. Na IBM, apesar de ser um empresa comercial, tinha um centro científico que interagia muito com o meio acadêmico. On - Isto aonde? Roberto - No Rio. Eu estou aqui desde 92, vim para a Ufes. Quando saí da IBM, fiz um concurso para professor do Departamento de Informática. E aí quando cheguei existia uma ligação bem precária com a Bitnet. Ligação discada, via modem discado. Então todo dia, às 3 horas da tarde, o pessoal do NPD se conectava com o Rio, descarregava os mails, as mensagens que estavam presas. Nesta época começou uma mobilização para fazer a ligação com a Internet. A Bitnet era uma rede que já estava com data marcada para morrer e acabou se prolongando, prolongando até que ninguém mais quis utilizar. Morreu de causas naturais, vamos dizer assim. Não foi de morte matada. Foi de morte "morrida". A Bitnet era uma rede apenas de máquinas IBM. Naquela época, início da década passada, todas as maiores universidades tinham maquinas IBM, porque tinha aquela política de preços subsidiados para as universidades. Então ficava muito fácil. Fazia-se uma ligação e pronto. Criou-se uma rede mundial que se chamava Bitnet. E já existia a Internet, todo mundo sabe da história da Internet, mas no Brasil ela veio surgindo devagar. Naquela época linha de comunicação era uma coisa muito cara. Bastante cara. Hoje ainda é, mas não dá para comparar o que era naquela época e o que é hoje. As tarifas eram absurdas. A gente tinha um link - só dando um pulo à frente. A gente tinha um link com o Rio. A primeira ligação com a Internet era de 9.600 e tinha um custo de 4 mil dólares mensais. Era realmente uma coisa absurda. Hoje voce tem um custo desse, mas para links maiores 256, 512, 1Mb, coisas desse tipo. Então, voltando, quanto eu cheguei estava esta movimentação para substituir a Bitnet pela Internet. Porque tava todo mundo vendo que era difícil de gerir, de manter aquele computador IBM. Aquele elefante branco que existia lá no NPD. E tinha muita limitação. Só podia utilizar serviço de e-mail praticamente. Era bastante limitado. Na Internet, como todo mundo sabe, os serviços são bem mais amplos. E o que foi conseguido? Politicamente conseguimos com a Vale do Rio Doce uma linha de backup. Eles tinham várias linhas e sempre tinha uma de backup sobrando. Eles pagavam para não usar. Então foi feita uma mobilização política da Pró-Reitoria de Pesquisa junto com o Npd. O diretor do NPD na época, Professor Álvaro. On - Mas nessa época já existia o plano nacional? Roberto - Já. A RNP [Rede Nacional de Pesquisa] que era a origem da Internet. E o Espirito Santo sempre foi, vamos dizer assim, o primo pobre dessa história. Os recursos maiores eram destinados sempre ao Rio, São Paulo, Porto Alegre, Minas Bahia... que são as universidades que tem mais força política, e conseguiam mais verbas. As verbas não eram muitas... O plano da RNP na época era reunir todas as capitais. O ponto de presença da RNP seria sempre nas universidades. Que todas as capitais tem universidades federais. Lugares mais longe, Rondônia, não têm muitos cursos mas todas as capitais têm suas universidades. E a idéia, por ser um projeto do governo federal, era envolver todas as universidades, exceto aquelas que não tivessem pessoal habilitado para gerir esse ponto de presença. Mas o Espírito Santo não recebia recursos. Voce olhava o mapa da RNP e estava lá o Espirito Santo. Mas, sem grana. Então tivemos de fazer por iniciativa própria. O linhk com o Rio, foi feito através da Vale do Rio Doce, que nos cedeu esta linha de backup, pra gente na Ufes fazer esta conexão. Fizemos a conexão. Ligamos lá uma Risc 6000, um outro trambolhão que na época era um "maquinão". Ligamos isso aí na Internet, começamos a dar "contas" para os professores. O pessoal envolvido em pesquisa. Alguns funcionários da Vale tiveram acesso em contrapartida pelo uso do link. On - Mas isto foi quando? Houve uma "data histórica"? Roberto - Não. Porque isso aí foi muito uma fase de testes. Na época quem tocava isso era o José Inácio Serafini. 92 pra 93. Não sei dizer a data precisa. Mas eu entrei na Ufes em setembro de 92, e comecei a me envolver com isso. Não lembro se a conexão saiu no início de 93 ou final de 92. Mas foi nessa época. O pessoal das antigas, todo mundo conhece o Serafini. Ele era analista de sistema senior do Npd. Serafini era uma espécie de "Deus" na Ufes. O processamento era centralizado, que era o IBM. Ele era uma pessoa que dominava todo aquele sistema. Então na Ufes, tudo passava pela mão do Serafini. Era como um Deus na Ufes. Abrindo um parêntese, quando apareceu o processo do "downsizing", que começou a colocar computadores menores nos departamentos, quebrou aquela necessidade de um computador central, e o Serafini deixou de ser aquela referência na Ufes. Um fenômeno bastante interessante. Se você falar com qualquer pessoa com mais de dez anos de Ufes, de qualquer departamento, desde o CTN ao Centro de Artes, e perguntar se conhece o Serafini, a resposta vai ser sempre sim. Se você pega uma pessoa mais nova... deixou de ser aquele marco. Exatamente por causa disso. Houve uma descentralização. Foi um fenômeno muito interessante, que eu vivi bem... Ele vinha tratando disso, e começamos a tocar juntos o projeto. O downsizing foi um fenômeno que causou mudanças radicais em várias empresas, em várias instituições. Você passa a depender menos de uma só pessoa. Tudo descentralizado, ligação em rede. Você passa a depender das coisas muito mais locais, interagindo com um núcleo central, o Npd não deixa de ter sua importância, mas aquela pessoa deixou de ser a única que conhecia tudo. Dominava tudo. Bom, fechando o parêntese... voltando. Não houve assim uma marca. Um "dia histórico", pra você dizer assim: aqui começou a Internet no Espírito Santo. Até porque foram testes, tivemos alguns problemas, a linha que a gente ligava, era linha de 9.600 com modem síncrono e a porta serial que a gente usava para conexão era uma porta assíncrona. Tivemos que comprar um conector... para fazer a ligação tanto aqui como no Rio, no Rio a gente ligava com uma Sun. Naquela época a RNP era totalmente amadora. Os roteadores eram máquinas workstation Sun para funcionar como roteadores. Só uns dois ou três anos depois, a coisa se profissionalisou. Colocaram roteadores Cisco para fazer o backbone. Então foram vários testes até que começou a funcionar. Então não sei dizer quando foi aquele dia. Aquela marca. Mas foi nesse período. Final de 92, início de 93. Foi quando começou realmente a Internet no Espírito Santo. No princípio era uma única máquina. E aí a coisa começou a evoluir dentro da Ufes. Algumas pessoas que precisavam usar a Internet iam lá no Cpd. Ainda de uma maneira centralizada. E usavam os terminais que estavam conectados nessa Risc. Com o tempo a gente começou a fazer a ligação em rede e já começamos a colocar computadores no próprio Npd e as pessoas já podiam acessar sem ser no terminal. Já podia ter aplicações gráficas. Aquela aplicações ainda bem rudimentares. Rodadas em Windows 3.1 que você tinha que usar o "trumpet". Coisa assim, heróica mesmo. Eu lembro que eu fiz a conexão do Npd ao Departamento de Informática. Conseguimos um modem sucateado. Não tínhamos recursos nenhuns. Mandei consertar esses modems. Eram modems a 4.600. Fiz a conexão e aí fiz toda a rede da informática ligada à internet. A primeira rede fora do Npd foi no Departamento de Informática. Logo na sequência mais um faxmoden, sucateado mesmo, e colocamos a elétrica funcionando também. Quase na mesma época. A partir daí a coisa começou a se profissionalizar. A Ufes começou a ver que a necessidade de Internet era grande. Não me lembro bem as datas, mas por 94, 95 fizemos uma licitação grande na Ufes, fizemos estações de trabalho, várias wokstations para poder ligar para uso computacional e para uso de Internet também. No Npd além desse acesso, colocamos uma placa multiserial. Um modem para acesso discado, depois evoluiu para dois modems, depois para quatro, oito, foi crescendo mas não cresceu muito. Creio que chegou a oito, dez modems, com linhas telefônicas. Aí começou a ter uma necessidade muito grande das pessoas. Aí começou um outro fenômeno muito interessante na Ufes, que era uma regra que qualquer professor, independente de departamento, de pesquisa, tinha direito a acesso a Internet. Foi uma enxurrada de professores pedindo acesso. Aqueles professores que nunca usaram, não sabiam nem o que era um computador. Foi-se descobrir depois que era para pegar para dar pro filho que dava pro primo, que dava prum amigo... e aí, com aquela linhas telefônicas da Ufes era impossível de se usar porque tinha um monte de gente que não tinha nada a ver com Ufes, nada a ver com pesquisa. Era a mentalidade que o brasileiro tem com a coisa pública. É público, então vamos arrebentar, vamos usar, bagunçar... mais ou menos essa idéia. Então, como você não tinha como controlar, você não tinha controle quase nenhum, você não tinha softs fazendo tarifação, não tinha nenhum controle de acesso. A gente sabia que existia, pois o próprio filho ia lá, garotão de 14, 15 anos falando de Internet que já usava BBS, que queria usar, que queria fazer download. Nosso canal era super cheio por causa de downloads. Foi uma coisa muito problemática na época. Foi o primeiro provedor de acesso discado. Obviamente bem rudimentar, com as ferramentas que existiam na época. On - E como está a Ufes hoje? Roberto - Olha, o campus da Ufes hoje está todo interconectado por fibra ótica. Em 94, 95 eu fiz um projeto grande, com o Hans Geork da elétrica... Hoje estou afastado da Ufes, voltei recentemente pro Rio... |