Ao contrário do que se pensa em termos de trajetória da música capixaba, esta não passou por fases decadentes ou de ressurgimentos e sim em tempos de maior ou menor contato com o público, variando com a percepção do músico em relação ao mercado e ao momento do mercado. O que há na verdade é um processo de caráter mundial massacrante e contínuo, que visa destruir a identidade de culturas menores. Não é por acaso que o povo capixaba trata a sua música e seus músicos de forma inferior, em segundo plano.

A economia capitalista tem a cultura como meta principal de sobreposição e desvalorização, portanto, para sua sobrevivência é imprescindível aviltar, destruir e dominar em caráter duradouro, por gerações, outras manifestações culturais. As culturas européia e principalmente norte-americana (localizações sedes do capitalismo) intensificam a imposição dos seus valores no Brasil desde os anos 40, sempre com a cumplicidade dolosa do governo brasileiro que aceita passivamente o modelo subdesenvolvimentista em troca da submissão. Então, a hipótese de que a música capixaba não se desenvolve porque seus músicos e compositores não estão à altura dos que fazem sucesso nacional ou mesmo fora está definitivamente descartada. Não se trata disso.

Diariamente somos forçados a escutar através do rádio ou pela televisão sons mecânicos, grosseiros, desprovidos de riqueza e que em nada pode acrescentar à música capixaba ou à MPB. É aquilo que passamos agora a chamar de anti-música. Os veículos de comunicação (tanto no Brasil como no Espírito Santo) têm uma responsabilidade muito grande na aculturação de nosso povo durante décadas, mas os govrnos têm uma responsabilidade maior.

No Brasil rapidamente floresceu a linearidade do passado, presente e futuro, sendo que desde então pensamos culturalmente sob os moldes do positivismo capitalista. Nossa memória tornou-se curta. Preocupada com o presente e o futuro acabou por banalizar o passado. Tudo que não é jovem, moderno, atual ou "na moda" velozmente transforma-se em exótico ou antigo, um tanto quanto ultrapassado. É importante observar que os mestres da MPB não pararam com suas composições mesmo quando ficaram à margem da mídia. Foi justamente nessa fase crítica (onde os canais de comunicação de maneira vil fecham suas portas para nossos maiores artistas) que instituiu-se no Brasil a divisão de música atual e música antiga. Agora os músicos, cantores e compositores que efetuaram canções maravilhosas a trinta, quarenta anos atrás fazem parte do passado, da "música antiga", corno se esses talentos estivessem inclusos numa evolução e que já teriam cumprido o seu papel, ou seja, as músicas de hoje substituiram "naturalmente" um estilo musical já morto. A idéia de incutir na mente das pessoas a sensação de um passado nostálgico e que não volta mais entra em contradição, por exemplo, com composições feitas a duzentos, trezentos anos atrás por Bach, Mozart ou Chopin que, com o devido trabalho de manter viva a memória, farão sucesso eternamente. Se Vivaldi, Ravel e Strauss continuam mais atuais que nunca, o que então é música antiga? Ao longo dos anos o capitalismo foi capaz de produzir a música descartável, provocando de uma hora para outra o nascimento de verdadeiros mitos artificiais de duração prevista. O dinheiro é o cerne do capitalismo e seus mitos, tal qual o ritmo desse sistema, são produzidos e substituidos em larga escala.

A música capixaba, envolvida neste emaranhado, evidentemente sofre todas essas pressões econômicas. Sua forma de resistência deu-se, em parte, pela absorção a propagação da anti-música, mas principalmente pela manutenção de suas raízes ligadas à Música Popular Brasileira. A grande maioria dos músicos, cantores e compositores que tanto ficaram ou saíram do Espírito Santo têm sua contribuição na MPB, embora que, para o grande público ter contato com essa contribuição, foi e ainda é necessário a migração para os centros artísticos. Como tal, não é impossível mudar esta situação. Para valorizarmos a música capixaba dentro do Espírito Santo e daí pra fora é necessario que o povo tenha contato e se identifique com suas raízes, mas para tanto, não devemos crer que este movimento adquira espontaneidade súbita na sociedade. Assim como o governo da Bahia, por exemplo, que investiu e hoje colhe os bons frutos da sua musicalidade, é necessário que o governo local divulgue seus talentos artísticos sem interesses obscuros, visando somente a potencialidade comercial de sua cultura.

Os anos 90 marcam um considerável avanço no mercado musical capixaba: casas noturnas multiplicaram-se e dão preferência aos artistas locais, estúdios de gravação surgiram e atingiram bons níveis tecnológicos (o que possibilita rapidez e qualidade nos discos e CD's), multiplicaram-se também as escolas de música públicas e particulares. É fato notório que o desenvolvimento fonográfico do Espírito Santo se deve em boa parte à Lei Rubem Braga (Lei n0 8806/8828 de incentivo à cultura da Prefeitura de Vitória), que em parceria com o empresariado local, lançou discos e CD's de centenas de músicos capixabas nos últimos anos. O que falta agora para a música capixaba poder despontar no mercado é a participação dos veículos de comunicação. Portanto, somente com a junção da mídia, governo do estado e empresariado que a música capixaba não apenas vai resistir, como também avançar um patamar bem superior.

Maurício de Oliveira é personagem presente a atuante na História da Música Capixaba. Se o violão é a olhos vistos o instrumento mais popular em nosso meio, Maurício tomou-se sua principal referência no Estado mesmo quando a mídia apontava os sucessos e modismos para outras direções. O mestre continua compondo na mesma velocidade quando da sua juventude, e se suas belas canções passam à margem do grande público a culpa não é do criador, mas sim do momento histórico.