![]() Octávio Ribeiro O amplo salão de danças, medindo uns duzentos metros quadrados estava vazio. Quase na penumbra. Em sua volta, nas mesas de pista, homens e mulheres abraçados, olhavam silenciosamente para o cabeleireiro Michel, iluminado por um jogo de luzes. Antes de anunciar as figurantes de um strip-tease, microfone à mão, o apresentador do show agradeceu a presença de um ilustre visitante: "Palmas para nosso querido Pedro Maia". A ovação foi estrondosa. As mulheres, com vistosos longos, gritaram freneticamente. O baterista rufou habilmente o couro de gato. Os clientes, talvez extasiados pela erótica decoração do ambiente, batucaram nas mesas, com copos e garrafas. Pedro Maia conversava comigo, perto do palco, quando seu nome foi anunciado. Levantou-se, rindo, da cadeira. Entrou no salão balançando as mãos sobre a cabeça. Com passos rápidos alcançou a extremidade da pista, ao lado do bar. Aí, ele surpreendeu todo mundo: retornou rebolando o corpo, imitando a ginga pitoresca de um travesti. A gozação foi geral. Pedro Maia estava um pouco embriagado. Durante o dia, bebera várias doses de cachaça e rum puro, nos bares da cidade de São Sebastião ou Carapeba, um lugarejo onde vivem mais de 1.500 prostitutas, distante apenas 20 quilômetros de Vitória, capital do Espírito Santo. A maior atração do lugar é a boate Atlântica, três andares de carne e luxúria, abrigo de duas mulatas altas; quinze louras, algumas naturais; e o dobro de morenas, umas seis de olhos verdes. As gatas são jovens, famintas por dinheiro, na maioria bonitas. À noite, Pedro Maia divertia-se na boate, em companhia de colegas do jornal A Tribuna, entre eles, seu diretor, Rubens Gomes, o "Rubinho", com apenas 25 anos de idade, talvez o xerife-mor mais novo das redações brasileiras. Pedro Maia não é um humorista nem homossexual. É um cara moreno, barrigudo, 36 anos, respeitado e admirado pelos quase 4 mil habitantes deste reino de amor e pecado, entre eles, policiais, comerciantes, bandidos e mundanas. Sua profissão: jornalista, registrado sob o número 19, no Ministério do Trabalho capixaba. É considerado o melhor repórter policial do Espírito santo. No princípio pensei que isso não era grande coisa. Mas logo eu descobriria que estava enganado. Ele é um especialista em malandragem de cabarito interestadual. No dia seguinte encontrei Pedro Maia curtindo uma ressaca na redação de A Tribuna. Usava poucos dedos escrevendo rápido uma notinha sobre um atropelamento: "É a maior praga criminal em Vitória. Não sei se os pedestres são muito distraídos ou se os motoristas são navalhas". Comecei a me interessar por Pedro Maia e por Vitória quando ele me definiu a cidade: "Isso aqui é a terra das contradições. Tem uma praia chamada Comprida que é a mais curta do lugar. O cidadão conhecido por Tristão foi rei Momo durante muitos anos. A família Lírio é composta só de pretos..." Além disso eu já havia visto Carapeba, o meretrício. Carapeba me impressionou muito. De um ponto de vista sociológico, claro. Sociologia de malandro. Vitória é uma bela ilha. A primeira vez que estive lá foi para fazer um levantamento sobre ladrões de autos. Sabia que o trabalho não ia ser mamão com açúcar porque Vitória é considerada a capital do carro roubado pelas próprias autoridades capixabas. Para evitar uma gelada, hospedei-me num hotel como um comerciante em férias. Aí meu plano falhou: fui reconhecido por alguns jornalistas que me apresentaram ao tal de Pedro Maia. O cara não obedeceu o mandamento do siri. Botou a boca no trombone, encarnou em mim. Embora não revelasse o motivo de minha missão, em menos de um dia, todo mudo soube que eu estava cutucando a máfia dos puxadores de autos. |
Chegam os gaviõesPouco a pouco eu havia penetrado sozinho no submundo. Apurei que os ladrões não furtavam os carros na região. Os veículos são roubados nos Estados vizinhos e levados para serem esquentados lá. Num período de dez dias percorri os quatro municípios - Vila Velha, Cariacica, Viana e Serra - que formam a "grande Vitória", com uma população de 500 mil habitantes. Transei polícia e bandido. Cheguei à seguinte conclusão: em Vitória não existe assaltante da pesada. Bandido não enfrenta polícia com máquina na mão. Isso em regra geral.Em compensação, além dos ladrões de carro, o lugar é celeiro de sofisticadas quadrilhas de guitarristas, vigaristas especializados em vender máquina de imprimir dinheiro. Um alto negócio para eles e um prato feito pra mim, e naturalmente para o Pedro Maia. Ele percebeu que eu estava atrás de alguma coisa quente. Procurou-me no hotel: "Malandro, você precisa de ajuda?" Aí eu senti que não ia me livrar do cara, assim sem mais nem menos. Respondi seco: "Tô levantando uma baba criminal em Vitória, deixa pra lá". No Rio, em São Paulo, em Santarém, onde for, quando eu falo grosso a turma costuma se encolher. Menos o Pedro Maia. "Pente fino, deixa de orgulho. Posso revelar-lhe alguns segredos. É canjica feita em panela de barro com leite de cabrito. É bom para subir morro." Eu retruquei: "Canjica capixaba tem gosto de goiaba bichada. O que você quer em troca?""Só a sua amizade. Eu dou as dicas, você usa como quiser." Realmente Pedro Maia forneceu-me algumas informações preciosas, inclusive saborosas historinhas sobre corrupção dos policiais e funcionários do Detran. Foi então que Pedro Maia me levou a Carapeba. Eu conheço vários tipos de bordéis espalhados pelo país. Entretanto nunca vi um igual àquele. Mais de cem prostíbulos, aquilo é a Disneilândia da viração. A minha segunda visita a Carapeba foi em companhia do Pedro Maia. Eu disse a ele que queria conhecer a barra em profundidade. No carro continuamos nossas provocações mútuas: "Pra conhecer precisa ser bom de serviço", disse Pedro Maia, "e carioca pode ser vivo iludindo o Cristo Redentor, aqui é diferente". Eu dei o troco: "Você é considerado o melhor repórter policial de Vitória porque aqui não tem bandido. Punguista treina catando grão de feijão na panela. Tem que apanhar o caroço sem sujar a forquilha dos dedos. Quero ver você enfrentar as feras do Rio e São Paulo". Aí ele me apertou: "Vou mandar o Touro Moreno, Vaquinha e o Mergulhão darem uma piaba em você". "Quem são as pintas?" "São os gaviões do terreiro. Gostam de bicar o gogó de carioca metido a c... uma goma." Enquanto Pedro Maia dirigia eu ia pensando: esse cascateiro pensa que sou um trouxa. Ele não sabe que eu já topei Mineirinho, Lúcio Flávio, Tião Medonho, Cara-de-Cavalo, Micuçu, Murilão, Paraibinha, até o ilustrado doutor Leopoldo Heitor e o pessoal dos Esquadrões. Quero ver esses bandidos de Carapeba. |
Finalmente chegamos à cidade das mulheres. Pedro Maia convidou-me para uma sinuca valendo o almoço. Eu ria de boca fechada. Ele desconhecia que sempre fui um taco enjoado no pano verde. Cuspi no giz azul sem ele notar. Seu taco espirrou várias vezes. Quando ia dar a tacada, eu colocava grãos de giz perto da caçapa. A bola desviava. Eu mirava uma bola sete quando uma pinta morena e forte entrou no bar. Pedro Maia gritou: "Mergulhão, este carioca aqui chamou você de frouxo. Quero ver ele confirmar". Olhei para a figura, rosto cheio, dentes bons, braços musculosos. Fui desviando a assunto: "Não é nada disso, meu forte não é o ringue. Meu negócio é gastar dinheiro com uma pretinha". Mergulhão apertou minha mão. Seus dedos pareciam tenazes. Minhas falangetas estalaram. Vai ser forte assim na... Lagosta Rossini RossiAqui eu gostaria de dar um breque para explicar direito o ambiente onde nós estávamos. Até 1967 o meretrício estava espalhado nos bairros centrais de Vitória, principalmente na rua General Osório. O então secretário de Segurança José Dias Lopes exigiu a mudança para um local afastado. As mulheres chiaram. As autoridades invadiram as casas, armadas de metralhadoras. Então, em fins de 67, nasceu a cidade de São Sebastião, hoje mais conhecida como Carapeba, corruptela de Carapebus, lugarejo próximo. Como todo apressado come entranhas, Carapeba surgiu sem nenhuma infra-estrutura, barracos e construções ao lado de vielas mal traçadas, como aliás costumam nascer as cidades brasileiras, mesmo as mais respeitáveis e até aquelas planejadas pelas autoridades, como as da Transamazônica.Pois bem. Como eu dizia, lá estava eu em Carapeba tentando passar o Pedro Maia pra trás na sinuca. Ele trocou de taco várias vezes, isolou o giz, quer dizer, pediu outro, e estava vencendo a primeira por larga margem, 25 pontos. Na mesa só havia a rosa e a preta (bola seis e bola sete). Aí eu caprichei. Dei-lhe um golpe de 27. Matei três vezes a bola sete e uma vez a cor-de-rosa. Aí perguntei: "Quanto custa o prato mais caro da casa? Quem paga é o malandro aqui. Acho que vou pedir lagosta dando gargalhada com molho de Rossini Rossi. E exijo gorjeta de 50% pro garçom". Mergulhão assistia ao jogo calado. Eu sabia que ele estava vestindo a mortalha do vingador. Não deu outra: "Você ganhou do Pedro mas quero ver acertar comigo. Vamos jogar o jogo das três chapinhas". Olhei sério para o malandro. Ele queria me roubar numa trapaça que conheci há vários anos, nos morros cariocas. O jogo é o seguinte: o jogador esconde uma bolinha debaixo de uma das três tampinhas de cerveja. Depois o malandro mexe com rapidez nas tampinhas, como fazem os mágicos. Para ganhar, o otário tem que adivinhar onde está a bolinha. Resolvi cutucar o Mergulhão: "Tá bem. Só exijo uma condição. Vou cortar suas unhas rentes". Um congá espiritualMergulhão olhou atravessado para mim. Entendeu a insinuação. No jogo das chapinhas a bolinha fica sempre escondida debaixo da unha. Mergulhão fechou a carranca. Fingi que não notei. Embrulhei o papo com gírias, metáforas, alusões, sei lá. Senti que ele estava precisando de um intérprete: "Esse cara fala esquisito, não estou entendendo bulufas, o que ele está falando Pedro?" Pedro Maia argumentou que eu era meio maluco. Respondi que estava enganado: "Isso é dialeto africano, uma mistura de Exu e Pomba-gira, que só o Idi Amin entende".Com meu papo carioca de malandro cansado fui atirando consoantes e vogais pra cima deles, depois pra dentro dos bordéis. As mulheres não ligaram para o meu baratino. Queriam apenas o meu jimbo, isto é, minha grana. Em Carapeba os prostíbulos são classificados em quatro categorias: A, B, C, D. A boate Atlântica é a rainha da noite. |