Arlindo
Villaschi





BEZERROS DE OURO DA 'MODERNIDADE'

ilustração d'aprés DIONÍSIO DEL SANTO

Há uma passagem bíblica que fala da indignação de Moisés diante da forma como o culto ao bezerro de ouro desvirtuava o significado das orações e da elevação espiritual que deviam se dar entre os que clamavam contra as injustiças. Como esta passagem está ligada ao religare do humano com o Criador a partir de um posicionamento contra as injustiças terranas, a imagem do culto indevido de outros valores humanos parece apropriado para refletirmos sobre a saúde e a educação no Brasil de hoje.

Vistas como serviços essenciais e indicativos da dignidade humana, e por isto defendida a sua universalidade por sociedades que se queiram mais justas, saúde e educação ainda continuam sendo interpretados pelo imaginário popular como algo que deve ser exercido como se sacerdócios fossem. Ainda que reconhecidamente mercantilizada parte substancial de suas relações, a figura tanto do médico quanto do professor nos leva sempre a uma imagem de responsabilidade social que não pode se limitar aos cifrões da maioria das relações econômicas de nossos dias.

Também as estruturas físicas onde esses serviços são oferecidos são tratadas no imaginário das pessoas com valores que vão muito além dos tijolos e outros materiais com os quais são construídas. O significado de hospitais e escolas é muito maior do que a forma em que se transformam os tijolos nelas empregados.

Diante do que é exposto no dia-a-dia pela mídia - seja através de matérias jornalísticas, seja por peças publicitárias patrocinadas pelos que comercializam serviços de educação e saúde - fica a sensação de que estão utilizando os templos de direitos sociais essenciais para a veneração de bezerros de ouro.

O que é pior, diante da ‘qualidade’ da maioria desses serviços prestados - independentemente se por organizações governamentais ou privadas - a impressão que se tem é que a ‘modernidade’ por estes lados abaixo da Linha do Equador, está substituindo em seus ritos a imagem de bezerros de ouro por objetos feitos de isopor e pintados com spray dourado.

A necessidade de apurarmos nosso senso crítico (de preferência acompanhado por boa dose de indignação que leve à mobilização), fica maior quando constatamos que sequer podemos imputar a profanação à saúde e à educação a algum ‘pecado original’ da globalização e/ou do sempre mencionado neo-liberalismo. Ainda que em sua essência teórica esta doutrina leve ao exagero as qualidades alocativas do mercado, o que se vê no Brasil hoje é impensável de ser presenciado nos mais ferrenhos países líderes do liberalismo econômico.

Vivi na Inglaterra no auge (e na queda...) do ideário de Tatcher. Acompanhei, com tristeza, o desmantelamento gradual de sistemas públicos de saúde e educação que haviam sido cuidadosamente construídos pela sociedade inglesa, principalmente a partir do reinado vitoriano. Mas essa tristeza em momento algum foi agredida pelo tipo de indução (via propaganda e outras técnicas menos explícitas) que vem sendo feita por um crescente número de ofertantes de doença (antes do que saúde) e de desinformação (antes do que educação).

Praticamente todos os instrumentos de comunicação de massa (dos tradicionais jornal, rádio; aos mais recentes ‘outdoor’, televisão e internet) são hoje utilizados por muitos dos ofertantes de mercadorias de saúde e educação. Tudo em nome de uma corrida para saber qual acelera mais o consumo de drogas - farmacêuticas; terapêuticas; de treinamento; de ensino - mas que, pela forma como vêm sendo utilizadas, nem sempre menos drogas do que as que são vistas como ilegais.

Fico a imaginar a reação de arautos da saúde e da educação públicas, enquanto valores a serem perseguidos por nossa sociedade, como Oswaldo Cruz e Paulo Freire, por exemplo, diante da banalização da discussão de temas sobre esses serviços e a vulgarização das formas e conteúdos de divulgação de suas agendas por este Brasil afora.

Acho que haveria muito churrasco de bezerros de isopor dourado...

10 dezembro 99

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