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Dos tempos de Alice


Chico Neto...

É Ekstasy estar cada vez mais perto quanto mais longe for o paradeiro, aqui e agora, na Revysta.

Moçada, hoje acordei reverenciando o britânico Lewis Carrol, o arquiteto do caleidoscópio lingüístico que são histórias como Alice no País das Maravilhas, O que Alice Encontrou Lá e Alice no País do Espelho. Vem a este último conto a luz da manhã que me remeteu, então, a Vitória do Espírito Santo. E quando digo Vitória, se antes queria exprimir a Grande Vitória, hoje vejo com um âmbito maior, tentaculando por cada pedacinho do Espírito Santo. O que tem Alice no País do Espelho com essa inspiração longa e bem-respirada? Já chegamos lá.

Alice, nos vários jogos que apareciam nesse livro, toda vez que queria tomar o rumo de determinado alvo, quanto mais para ele corria, mais dele se distanciava. A recíproca era verdadeira. Sinto-me assim com relação a Vitória, melhor dizendo ao universo que Vitória compreende e que toma a bênção da Barra do Jucu. Quanto mais longe, mais presentes pra mim estão a Ilha e o território capixaba.

É um sentimento de dois gumes. Traz a pontada da saudade física e o contentamento extasiante que é perceber, por essas lembranças tão presentes mesmo, que todo o universo que lamento estar longe na verdade se faz cada vez mais assíduo no meu cotidiano. No meu caso, desfruto sem pensar meia vez da segunda esfera desse sentimento.

E percebo o quanto se encontram assim, espalhadas pelo mundo, algumas pessoas que marcaram presença na cena capixaba e que, alhures que estejam, têm verdadeiras centelhas de conexão com esse mundo à parte chamado Espírito Santo. É gente que, como eu, a certa altura nem partilha mais com muitas pessoas a informação detalhada de que existe no mundo um lugar assim, peculiar na medida para ser a marca na vida de muita gente que passou por aí.

É terra de gente muito especial, luminosa, inclonável. Desfiar-me no citar alguns desses tipos demandaria linhas demais. Algo muito próximo, by the way, me diz que você que está sorvendo a delícia eletrônica que é a Revysta deve ser um desses seres. Mas, por um motivo bastante considerável, vale lembrar um desses viventes irradiantes das terras capixabas: Marien Calixte.

Em 1980, quando trabalhávamos na Tribuna, lembro-me como se fosse hoje de uma reunião de redação que ele, então editor-chefe, convocou, e entre outras considerações perpetrou essa: “Daqui a alguns anos, a velocidade da informação dará outra dimensão ao jornalismo e à mídia, porque as pessoas terão condições de mandar as matérias da rua, de casa, de diferentes maneiras de se conectar que serão as formas do mundo onde tudo se sabe em tempo real”. Não vou jurar que houve todas as vírgulas, mas asseguro ser sinônimo fiel ou tradução juramentada do que ele disse na época o que utilizei aqui no recheio das aspas. Naquele dia ficamos - pelo menos eu e minha Realidade Interna - a pensar: gostei da simpatia do jetson para com a luneta do futuro!

E o que, enfim, comemoro hoje outra coisa não é se não o canal eletrônico, da velocidade real, o futuro que nem é mais como era antigamente estalando aqui e agora gente de tantos cantos do mundo que se reúne estrategicamente na entrada do Outono. Nas páginas da Revysta, que tantos de nós, espalhados pelo planeta, muitas vezes sem o saber estaremos saboreando ao mesmo tempo. Celebro é esta possibilidade que, ainda nos idos dos anos 1800, levantou em Alice Através do Espelho Lewis Carrol (que originalmente era um professor de Matemática e adorava tirar fotos de ninfetinhas, pelo que não demorou a ser urubuzado).

A do longe é um lugar que não existe. A taça transborda nesta caminhada para o Outono (aqui no Hemisfério Sul, lembrei). Aproveite, rapeize. É para deixar folha morta cair, despencar sem medo, e com a mesma abertura acalentar vida nova que vem. Porque, assim como antigamente e creio que por muitos milênios, viver de novo a cada dia é um tônico e um luxo.

março 2002


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