daniel
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Esquisito país o Uruguay, a velha Suíça da América, como ainda
preferem chamá-lo os velhos e os ainda não tão velhos.
Neste mundo em que a telinha nossa de cada dia nos mostra todo tipo de violência: naturais, humanas, tecnológicas, climatológicas, nao deixa de ser um acontecimento o que viveu um anônimo totalmente anônimo turista holandês em sua cidade-Capital, de nome meio português, Montevidéu (Monte Vide Eu, dizem que disse o que a avistou primeiro). E conta a lenda que o bom turista holandês andava passeando entediado por Montevideo, como já tinha acontecido em tantos outros cantos do mundo na sua velha vida de turista entediado. Praga, Roma, Paris, Londres eram coisa de um fim de semana qualquer; pegar as crianças - quando ainda eram crianças - e fazer piquenique no Coliseu tinha há muito tempo deixado de ser surpresa para sua mulher, também para as crianças, mesmo quando eram crianças. O mundo é pequeno quando a gente vem da pequena Holanda! Montevidéu não tem nenhum grande museu ou coisa parecida, muito menos comparada com a velha Holanda do Rembrandt e do Van Gogh. A Opera é uma arte com datas muito precisas e reduzidas em quantidade e qualidade. As praias näo têm comparação com a mais chata praia do Caribe ou do Brasil - as Sheychelles ainda nao tinham acontecido em sua turística existência - e ainda por cima o outono já chegara (no hotel lhe disseram que precocemente, e certamente mentiam, como sempre faziam com os turistas). Nos cinemas, os mesmos velhos filmes americanos (do Norte) de todo o mundo, de Berlim a Moscou; do Cairo ao Rio a mesma marquesina anunciando os mesmos filmes, e a maravilhosa Cinemateca com seus filmes velhos nao era do seu interesse. Museus, já falei, nao dava. No hotel o silêncio aumentava o tédio e os esparsos sons dos carros longinquos só faziam o silêncio persistente mais denso à cada volta. Na tela da tv as dezenas de canais ofereciam o mesmo filme repetido ad nauseam. Os holandeses às vezes usam expressöes um tanto quanto esquisitas e antigas. Já nem se lembrava como se havia deixado convencer pelo seu velho amigo-agente de viagem a fazer essa viagem absurda. E ainda por cima faltava um monte de dias para poder marcar a volta, sem perder os gastos (já pagos) do hotel e o resto do pacote turístico. Ainda persistia o malestar quando acordou da soneca que tinha dormido quase sem querer, com vergonha de não fazer nada, nem sequer como turista. Que algo fazem e não perdem o tempo dormindo. Alguma coisa tinha que fazer para que não se lhe terminasse aparecendo o fantasma do avô calvinista, aposentado aos 80 e concorrendo até o último dia à fábrica. Por mais problemas para turistear o clima não acompanhava, o outono tinha adiantado sua chegada, como já disse. Será La Ninha, que tanto transtorno climático já lhe tinha trazido? O hotel continuava täo silencioso como no começo da siesta (esta palavra não existe no holandês básico, ele a conhecia desde sua primera viagem à Espanha, antes de casar). No flash back lembrou que o pedido inicial ao agente de viagem foi que queria "algum país bem tranqüilo, para descansar mesmo!". Como estava começando a ficar cansado de descansar no silêncio do hotel, saiu à rua. Ao porteiro perguntou que rumo tomar para chegar à Avenida principal da cidade. Todas têm uma, inclusive na África ... Os velhos e pesados bondes e a mistura de luxuosos e sofisticados carros do ano com outros velhos fez que lembrasse, de novo, como uma pontada na virilha, que estava num país do terceiro mundo. A correria dos transeuntes que ainda restavam na rua lhe disse que certamente a jornada de trabalho estava a terminar. Por aquilo de torcer sempre à direita para sair de um labirinto, seus passos levaram-no rumo a uma praça onde um esquecido fotógrafo lambe-lambe, com uma moderna câmara polaroid no pescoço, resignado com o pouco trabalho feito recolhia lentamente o tripé de seu antigo artefato. O monumento equestre do herói nacional -Artigas- lembrava o dos condonttieres vistos na Itália (o cavalo era um baita cavalo). O resto da praça, incluido o túmulo do herói não tinha nada mais. Uma coroa de flores murchava ao pé do monumento, apesar do brilho dourado das letras do crepom. Os altos edifícios novos ou velhos que a circundavam eram iguais a qualquer edificio visto antes, e muito menores em altura. Menos um, baixo, com colunas, bandeiras na varanda, guardas uniformizados, bastante gente na porta. O escasso tráfego permitiu que atravessasse a rua tranqüilamente, mas quando chegou à porta daquele edifício que se destacava no conjunto arquitetônico da Plaza Independencia, o tumulto visto do outro lado já ia se dissolvendo aos poucos. O que restava (do tumulto, claro) foi suficiente, porém, para lhe permitir escutar que falavam uma língua conhecida: o velho, querido e útil inglês! Que sorte! Alguém com quem conversar, perguntar que encantos tem esta cidade, este país, para alguém que fala inglês. Ele, é claro, como qualquer europeu, falava inglês fluidamente e outras três ou quatro línguas mais. No final foi ficando um homem alto que se destacava um pouco mais que os demais *talvez porque já não estavam. O carro que conduziria esse homem permitiu-lhe passar, o que lhe deu a oportunidade de poder aborda-lo com uma pergunta qualquer. Qualquer pergunta é boa para iniciar uma conversa, pensou. -O senhor mora aqui? foi tudo o que lhe permitiu perguntar a siesta mal dormida e o tédio até agora vivido. - Não. Eu trabalho aqui, respondeu o homem alto e careca. - E que trabalho é esse, senhor? - Eu sou o Presidente da República, senhor. Este é o Palácio Esteves, casa do Governo. Foi neste momento, conversando com o Presidente da República Oriental do Uruguay, Dr. Jorge Batlle - italiano? pensou - que finalmente entendeu o que o seu velho agente de viagem e amigo entendia por tranqüilidade. Tentou alguma desculpa, mas nõo foi necessário. O Presidente, sem escolta, já voltava para sua casa. A tarde começava a esfriar e na volta ao hotel o entediado turista holandês foi pensando que alguma coisa esquisita tinha acontecido com ele numa cidade do terceiro mundo, que poderia ser contada e ouvida com muito mais interêsse aos seus filhos e netos que tantas outras coisas maravilhosas que já tinham acontecido em sua longa vida de turista holandês. 4 junho 2000 imprimir | fechar |
![]() Maosoleo de Artigas, Plaza Independencia
O coração da Capital ![]() Rio de la Plata ![]() Palacio Salvo, Plaza Independencia |