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Jace Theodoro
20 julho 2000 - ESTA COLUNA É ATUALIZADA TODA QUINTA |
Vertigo na Terceira Ponte |
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Jace Theodoro estréia com esta crônica no CapixabaOn, onde vai estar todas as quintas.
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Luiz não saltou da Terceira Ponte para a morte. No topo da travessia para Vila Velha, o cabeleireiro não resistiu a tanta possibilidade de vida, ao mar aberto às chances de Paraíso, um Alighiéri sendo Beatriz de si mesmo, e saltou. Naquele instante o espelho das águas refletia os vários luízes, braços em cruz, asas de anjo que se expandiam pelo ar em reflexos dos reflexos dos reflexos infinitamente. Luiz sonhou em ser eterno, uma sensação que enche, diária, meu coração à passagem da ponte.
A manhã é mais larga, uma extensão de luzes (como os vários luízes) quando o olhar da ponte se detém no mar, não como o mar da baía de Guanabara, um grande corpo aquoso e desfalecido, mas um braço, membro delicado do grande corpo. O sol, bígamo, namora o mar aberto bem cedo, quando a ida para Vitória é sustentada pela quentura dos amantes matinais bem à direita de quem vai. Na volta, ele já está de caso com a enseada, a do Suá, o morro do Nazareth por testemunha e de novo a grande visão espalhada no membro que abraça quem olha. Minhas retinas são espreguiçadeiras e, mais uma vez, olhos no mar, reflexo do reflexo do reflexo, porque espelho, já dizia Clarice, é sempre plural, nunca um só. Como Luiz já tive desejos de experimentar o vôo sobre o nada, ganhar asas, virar anjo em domingo de maio. E ter o mar para secar porque eu seria eterno, fonte e sede, jorro e recolhimento, esquecido que espelho, mesmo o das águas, se quebra um dia restando de nós triângulos da testa, losangos de nada, uma geometria feita de sobras. Luiz, cuja arte era cuidar de cabeças, perdeu a sua ao ouvir o canto de alguma sereia com timbre de Salomé e, João Batista interrompido, atendeu ao chamado do mar. Nossa Senhora da Penha, esquecida em ave-marias no convento, não rogou pelos pecadores a tempo de impedir o vôo cego, o morro do Moreno empalideceu e o Penedo, ao fundo, desfez-se do beijo contínuo das águas no corpo da rocha. As duas cidades, aproveitando um descuido do braço do mar, uniram as mãos num gesto contrito, uma reza que amparasse o salto vertiginoso mas não foi o bastante. O mar já roubara o corpo, as roupas, os sonhos e o futuro de Luiz. Um silêncio de facas restringiu o sal da maresia. A ponte trincou, trêmula de ondas. Silêncio. Ausência nas cidades de Vitória e Vila Velha. Na fala suspensa o inefável que encerra a coragem e o horror de um suicida. imprimir | fechar |