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janaina de assis
Bsb-Vix
Vitória, digo Vila Velha também, não é a minha cidade, a minha cidade é Brasília. Eu cheguei para morar aqui no reveillon de 1994, depois de uma tempestade que me deixou presa por 12 horas no Galeão, perambulando com um berimbau pendurado no braço - a única coisa que realmente não consegui entochar nas minhas malas.
Não vou à Brasília desde março de 1997. Entre 1994 e 1997 ia pra lá em qualquer oportunidade e não fazia nada para encontrar motivos para ficar aqui de vez: essas coisas básicas tipo trabalho e namoro, que acabam prendendo a gente. Então depois de um rompante onde quase voltei de vez fui parando de ir, parando de querer voltar e achar que eu estou muito bem aqui. Ah, tem uma praia bem umidinha nas costas do meu prédio e quando eu estou lerdando no banheiro entra um ventinho delicioso pela janela. Lá em Brasília é um vento seco que te rasga e não tem Vasenol que dê jeito na sua pele. O nariz sangra. Na verdade esse negócio de nariz sangrar só aconteceu comigo em uma das viagens, já desacostumada com a secura candanga. A mesma secura que eu adoro por funcionar como uma escova de chapinha permanente nos cabelos. Eles ficam assim bem japas, sem fazer um cacho.
Enquanto ficava nesta indecisão, ia observando o apodrecimento da cabaça daquele berimbau. Ele foi comprado na Torre de TV de Brasília, onde eu e minhas irmãs sempre íamos acompanhar a mãe (eu falo muito nela, né gente?) nas suas encomendas de móveis de mogno com os artesãos que tomam conta da parte de trás da torre. Na maioria das vezes não agüentava ouvi-la explicando para eles todos os detalhes do desenho que ela levara de casa e me enfiava no meio dos hippies, cearenses e baianas que se misturavam no outro lado. Numa destas fugidas é que comprei o berimbau. Minha mãe demorou tanto na conversa que deu tempo pro dono da barraca me ensinar a tocar. E olha que eu até aprendi direitinho.
No primeiro mês de vida úmida em Vila Velha, o instrumento apresentou umas alterações na casca, daí surgiram alguns cupins. Raspei e taquei remédio. Parei de tocar. Ele rolava de um canto para outro do meu quarto até o dia em que coloquei o computador perto da cama. Joguei o berimbau fora. Guardei o caxixi (é assim que se escreve o nome do chucalhinho?). E nunca, nunca mais fui em Brasília. Mas desde então não consigo prestar atenção nos repórteres a repetir a mais nova gracinha do FHC. Fico olhando o céu atrás deles e chutando a hora em que a reportagem foi gravada, de acordo com a mistura de tonalidades. As cores mais fantásticas acontecem de 17:00, até o anoitecer.
Vocês chamam Vitória de cidade presépio, tudo bem. Fora a obviedade da comparação, isso também tem um significado para mim. Acho que é o que eu vivia indo de ônibus para a UFES: podia estar o maior conversê, mas quando o ônibus passava do Convento e do Morro do Moreno, de um lado o mar e de outro a baía calavam a boca de todo mundo, numa espécie de oração. Eu agradecia por ver aquela paisagem todos os dias. Ela me tirava o mau-humor de ter que estar na aula às 7:00 da manhã. É por isso que eu não abro mão de morar do lado de cá da ponte: o lado de Vila Velha. O stress fica no pedágio.
Enquanto isso, Brasília está virando um brinquedinho de encaixar na minha memória. Lego, é isso que Brasília parece. Agora eu tenho consciência que morava numa obra prima. Morava num Niemeyer. Antes era só a nossa casa.
Eu amo Brasília talvez mais do que qualquer pessoa precise amar sua cidade. Acho que é por causa da (adivinha quem?) dona Maura, a mãe. Ao pôr-do-sol do primeiro domingo de cada mês ela levava a gente para ver a troca da bandeirona da praça dos Três Poderes. E gritar bem alto com o barulho dos canhões que fazem parte da solenidade. E depois sempre esticavámos um passeio pela cidade. Parecíamos turistas eternos, visitando os mesmos lugares e ouvindo as histórias da época da construção. Não perdíamos a parada de 7 de setembro. E como era boa a surdez momentânea que os F-5 deixavam nos meus ouvidos. E o Teatro Nacional? Era lá que eu ia fantasiada de adulta, ainda aprendendo a usar salto alto para ver os espetáculos nacionais e internacionais que acabavam batendo ponto na capital. Ia sozinha muitas vezes, que delícia.
E toda vez que essa saudade de Brasília me aperta, é só atravessar Terceira Ponte que passa. Só que eu estou de pijama. Não vai dar pra ir agora. Vou dormir com ela, a saudade.
18 junho 2000
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