leo pichara
Tesouros da Ilha
Nada como redescobrir o prazer que certas coisas nos trazem. Tarde dessas, cansado de mais um dia "punk" de trabalho, só queria no máximo ver um vídeo e cama. Estava totalmente sem paciência pra correr atrás de lançamentos em locadoras, muito menos enfrentar a "aventura" que é ir ao cinema no shopping Vitória, onde você está sujeito a todo tipo de situação que pode destruir toda sua vontade de freqüentar as salas (que por sinal estão em péssimo estado) . Eis que então, um amigo que estava comigo sugeriu que fôssemos à uma locadora muito legal, que tinha uns filmes de catálogo, opções de clássicos, essas maravilhas da sétima arte. Foi tal minha surpresa quando chegamos na dita cuja, era a Camburi Vídeo.
Quem não se lembra da organizada e meticulosa locadora na Praia do Canto do nosso querido crítico/cineasta Hamilton de Almeida, pois é, ela ainda existe na Rua do Canal em Jardim da Penha, não tão organizada, mas cheia de tesouros imperdíveis, você cinéfilo desavisado pode pirar lá dentro; e ainda existe um espaço reservado para livros que vale uma garimpada.
O Hamilton tinha uma preocupação enorme em trazer coisas boas para o povo da Ilha, me lembro do seu atendimento super paciente, quando procurava alguma informação (e isso ele tinha) sobre filmes, não era essa coisa desinteressada da maioria; existia prazer no trabalho dele. Saímos de lá com mais de vinte fitas, todas imperdíveis. E o melhor: a locação de "não-lançamentos" é bem mais em conta! Programão, de preferencia bem acompanhado.
Essas redescobertas surgem para lembrar a gente que temos tantas coisas que deixamos de fazer ou lugares que deixamos de ir e que fazem muito bem. Já parou pra ver e sentir o centro da cidade por exemplo; o casario, as escadas, a catedral,capela do rosário, a cúria metropolitana na cidade alta é uma construção secular maravilhosa, experiente entrar lá. O Parque Moscoso é o máximo, quem nunca foi levado por uma tia ou quem seja, para brincar e ver os jacarezinhos no fosso, eu particularmente adorava a casa da branca de neve, que ficava no meio de uma pista de mini-carrinhos que andavam de verdade, ou a concha acústica, que por sinal está sendo toda reformada. Lembre-se que se ninguém freqüenta a coisa tende a sumir mesmo.
A mesma sensação boa e de familiaridade, eu sinto lendo Bernadette Lyra, ninguém sabe descrever o que é morar na Ilha de Vitória como ela faz. Ela se apropria de todos os recantos e lugares da cidade, e os transforma em sua ficção, mas que ao mesmo tempo nos transmite uma total cumplicidade de sentimentos, como se daquilo estivéssemos participado; vivido uma época que não foi a nossa(no meu caso). Para ser mais exato é como ser saudosista de uma coisa não vivenciada. Leia O jardim das Delícias ou Memória das ruínas de Creta, e saberá do que estou falando. Redescubra essa cidade, ela tem história, e é contada todos os dias na nossa cara e não percebemos.
Enquanto isso o vento sul sopra frio lá fora ...
1 agosto 2000
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