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LOBO
PASOLINI



A SEMIÓTICA DAS DROGAS



desenho CHUMA



A sociedade ocidental já teve sua lua de mel com as drogas. Agora, o Ocidente e as drogas são como um casal que se odeia, mas que não consegue separar, porque eles são mutuamente dependentes. Obviamente, a única consequência possível de uma convivência doentil é a tragédia e os acidentes já vêm acontecendo por um bom tempo.

O problema da droga na sociedade moderna está profundamente associado com o triunfo do capitalismo globalizado e o estado confuso no qual estamos submersos. Sem qualquer filosofia ou questões mais profundas para ocupar os pensamentos, a única fuga é a sedação. Fuga, no entanto, não é a palavra certa. As drogas não são mais exclusividade do gueto, boemia ou inteligência. Elas são o passatempo favorito do contínuo de um escritório de advocacia. Elas não tem mais aura ou mística. É uma mercadoria que vai muito bem com a revolução digital e a era da realidade virtual. Em uma época quando os significantes perderam totalmente a ancoragem no mundo real, o nível de percepção 'chapado' no qual as drogas nos lança é muito mais próximo da hiper-realidade pela qual nos movemos. Não é um admirável mundo novo, mas sim um pastiche de um mundo perdido.

As almas das pessoas vivendo nas sociedades pós-industriais no final do século 20 se encontram em um estado de agonia emocional. Estamos perdidos. A fragmentação nos deixou sem direção, paixão, inocência e proposta. Não produzimos mais, simplesmente copiamos. Nós todos sabemos disso, eu sei, mas nós somos tão passivos que nem queremos falar sobre isso. Ouço daqui os suspiros de ironia.

Eu odeio esta maldita era pós-moderna e sua esquizofrenia. Infelizmente, não tenho como viver em um outro tempo, como alguns Iluminados que me precederam o fizeram, e eu os invejo por isso. A pós-modernidade está batendo o último prego no caixão que carrega o corpo da arte, seus olhos rolando sob efeito do 'ecstasy', o bolso com uma sacola cheia de cocaína.

As drogas. Elas não mais são um meio de se chegar até algo, um estímulo para criação artística e intelectual, porque tais coisas não acontecem mais ou pelos menos não são incentivadas. Tudo o que as pessoas querem é o que eu chamo de gratificação instantânea, a síndrome americana. Das mesma forma que a arte que é produzida hoje é sobre ela própria, as drogas são um fim em si, uma epítome do consumismo e neste sentido, em perfeita sintonia com o que Fredric Jameson chama de a lógica do capitalismo de terceira fase. Elas são uma experiência de auto-referência e nostalgia. É normalmente dito por aqueles que desenvolvem um hábito de usar drogas que o seu uso contínuo é uma tentativa em vão de reproduzir a primeira onda. Então, a partir da segunda vez que alguém toma algum tipo de droga, o prazer não será derivado dos fatos da vida. Não será uma celebração de algum tipo de realização ou o puro prazer de estar vivo. Será meramente a sequência da primeira vez, uma citação da primeira, uma cópia frustrada. Talvez seja por isso que drogas como o ecstasy sejam tão popular na era pós-moderna, porque elas se encaixam tão bem com o espírito esquizofrênico do período. A Modernidade, que era racional, preferia cocaína e sua sobriedade. Hoje em dia, as pessoas também usam cocaína, mas elas abusam e halucinam com ela. Ninguém mais consegue tolerar a realidade. Nós abandonamos o Pai e estamos vivendo numa espécie de Pentecostes cacofônico, falando línguas estranhas, possuídos pela irracionalidade do Espírito Santo.

Era uma vez, as drogas eram um sinal de rebeldia. Tomá-las era se rebelar contra um sistema, era uma afirmação de juventude, abertura, experimentação. Estranhamente, as coisas se inverteram completamente. O usuário de drogas é o cidadão passivo que aceita as normas de uma sociedade cada vez mais materalista. As drogas são uma prescrição e, embora elas permaneçam ilegais dentro dos termos da lei, elas são totalmente endossadas pelo establishment e pela mídia. Elas são um dispositivo que ajuda as pessoas a se ajustarem. É aquela velha estória, se o mundo pirou, os loucos é que estão certo. Tomar drogas se tornou a forma mais eficaz de se entender, ou melhor, aceitar, uma realidade que não faz mais sentido algum. Portanto, como eu disse antes, fuga não é a palavra certa, na verdade a metáfora deve ser uma palavra que signifique exatamente o contrário. Não se toma drogas por escapismo, mas sim para assimilação.

05 novembro 99

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