nenna@nenna.com 07 setembro 1991 [originalmente publicado em A GAZETA] ARQUIVO NENNA ESCREVE ÀS TERÇAS |
A Cidade Faz História
A Gazeta, 7 setembro 1991 O nosso meio artístico/intelectual segue seu caminho rumo ao cosmopolitismo. Continua assim na música, vídeo, cinema, etc, evidenciando um comportamento que se aproveita das facilidades tecnológicas e possibilidades de produção para criar um contraponto não “provinciano” às influencias e poderio externo. Ou seja: não apenas “acompanhar” a história, mas também “fazer” a história. Dentro desta perspectiva, a Instalação no Armazém 3, no Porto de Vitória, injetou uma enorme quantidade de energia no circuito local, retirando um pouco da poeira e do mofo que insistem em permanecer nos cérebros menos arejados de alguns de nossos produtores e espectadores. Luzes e ação No início foi “a festa”. No lado de fora, a surpresa alimentava uma performance preciosa do dançarino Markos Konká que, com movimentos lentos, circundado por uma rede, esbanjava sensualidade vestido com uma sumária sunga. O corpo negro untado com óleo fazia suspirar algumas pessoas. Ao fundo, o som ultragenial de Villa-Lobos. O mesmo espaço foi ocupado depois pela atriz e também dançarina Rita Elvira, que em cima de uma empilhadeira soltava fogo pela boca como a aquecer alguma carência perdida no meio de tanta satisfação. Dentro do Armazém, um mar de pessoas degustava um evento que primou por um profissionalismo pouco comum na cidade. As obras não pareciam criações isoladas, e este é um dado extremamente positivo para uma instalação que envolveu tantos e diferentes artistas. Pinturas e arredores A análise individual dos trabalhos identifica algumas fragilidades. Na pintura, poucos conseguiram se impor no ambiente de grandes dimensões. Fábio de Bittencourt se destacou no perceber com muito apuro o clima do evento. Único a utilizar as paredes como suporte direto para suas pinturas, realizou uma “anotação” tendo como temática a própria participação no evento. A primeira pintura é um auto-retrato circundado por elementos que o artista detectou na cidade, como o próprio porto, ferramentas, sereias(?), e cachorros. A outra, um retrato da namorada chorando (ficou em São Paulo). Tudo em preto e branco, vestígios de cinza e muito “estilo”. Também na área da pintura, mas aí já utilizando sucata sobre superfície, o trabalho de Ivanilde Brunow é uma grata surpresa no uso das cores e mesmo em sua dimensão. Ricardo Cruzeiro consegue um bom resultado em sua integração com o ambiente. Com um trabalho focalizando um casal no sexual, ele dispensou o fundo com recortes e ocupa a parede do chão ao teto. Em uma das paredes laterais, Leonilson consegue quase o impossível. Com trabalhos muito delicados, mínimos e sutis – vindos de sua recente exposição na Galeria Thomas Cohn/RJ – ele evidencia um estranhamento primitivo dentro de um comportamento nitidamente intelectual, que se impõe pela “ausência” de impacto visual. O bordado de pequenos símbolos e frases em tecidos colhidos em seu cotidiano substitui a pintura, comum em seus trabalhos anteriores. Outros artistas ligados à pintura, alguns importantes na arte brasileira contemporânea como Luiz Zerbini, Leda Catunda e Arlindo Daibert, além de talentos locais como Hélio Coelho, foram praticamente “engolidos” pelo ambiente. Expectativa e Ilusão O trabalho de Hilal Sami Hilal merece uma reflexão sobre sua produção recente, ele que é um de nossos mais persistentes, capazes e sensíveis artistas. Com o título de “Os Persas que Mamãe não Teve” – Hilal colocou sobre um piso de pedras alguns de seus papéis pintados, como se fossem tapetes. Sobre os “tapetes” flutuavam – mantendo contato com os papéis e o piso – simpáticos objetos construídos com bolas de gás, madeira e uma pequena bandeirola dourada. Voavam ainda alguns balões transparentes em forma de coração. Mas o resultado, no dia seguinte à abertura do evento, era quase desolador. Não dá para disfarçar. Hilal, que atingiu grandes momentos na Galeria Usina, passa por uma fase possível de acontecer a qualquer artista: falta algo. Talvez invenção, talvez o desejo de correr riscos. O trabalho apresentado não atende a expectativa de sua produção. Dois outros artistas, igualmente qualificados, não mostraram exuberância em suas criações. O trabalho em tecelagem sem tear, que Dilma Góes vem desenvolvendo há muito tempo, rico e delicado em sua construção, perdeu todo o seu charme ao utilizar outros materiais e dimensões. Lando não merecia os trabalhos que ele próprio decidiu expor. Em sua produção, com muita facilidade encontraríamos outras obras mais marcantes. Grupos e Sussurros Os trabalhos em grupo tiveram bons momentos: a simplicidade objetiva de Antônio Aristides, Eugênio Herkenhoff, Norton, Lincoln e Mônica Debanée na inversão de funções, ao colocar cadeiras na parede e uma grande tela no chão (conforme o planejado). A retirada da tela do chão eliminou o óbvio da proposta e fez com que ela crescesse. Outra proposta que saiu fortalecida com mudanças foi a realizada pelo grupo de Nilson Fanini, Edison Arcanjo, Tânia Calazans, Mara Perpétua e Flávia Carvalhinho. Planejada como um barco cheio de tinta vermelha, durante a execução a tinta começou a vazar e o grupo optou por emborca-lo, criando um instigante naufrágio em porto seguro. Mas o grande destaque foi a densa e ao mesmo tempo “zen” criação de Freda Jardim, Rosana Paste, Celso Adolfo, Mac e Jeveaux. Areia, bolinhas de ferro e uma coluna em forma de paralelepípedo gigante, coberta com pó de minério, a peça propunha, segundo os autores, a visão de “um jardim infinito do futuro”. Foi uma “invasão” calma, sutil, bem dimensionada e que só teve similar no mesmo nível, na exuberância oriental impregnada na obra individual de Heitor Takahashi. Sua instalação distribuía energia através de um sol dourado, iluminando varetas de madeira espetadas em areia. O sol ultrapassou as varetas e derramou “luz” sobre os privilegiados que ousaram se divertir no interior do Armazém 3. No objetivo explícito dos organizadores, de confrontar a produção local com a de outros centros, deu empate. Ou melhor, ganhamos todos. Só faltou a Lygia Pape. Que venha a Instalação 93. O porto está aberto. Nenna [nenna@nenna.com] imprimir | contato: taru@taru.art.br | fechar |