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paulo bonates
A história de Alfredo - parte I
Não é visagem, não é visão. Muita gente já viu o vulto nas madrugadas a dentro da Santa Casa. Então Pedro Maia, deixa eu te contar no mais nilodemingal sigilo. Trata-se um segredo, até então velado em parcas conversas de velhos e ilustres esculápios da antiguidade desta ilha.
É que um homem nascido Alfredo paira a ermo pelos corredores da Santa Casa de Misericódia desde 1958, quando tinha 17 anos. Foi entregar um telegrama - trabalhava nos Correios e Telégrafos ali da Jerônimo Monteiro - e jamais conseguiu sair.
Ocorre que sendo o hospital mais importante e durante muitos anos o único a receber indigentes, povo e governo, o - como diz você - nosocômio foi obrigado a ampliar suas instalaçôes nem sempre com o rigor à arte da engenharia e arquitetura. Assim sem ia-se construindo puxadinhas para atender a todos e transformando o hospital em um labirinto de dar inveja à Esfinge. Não Pedro não é a comida árabe. Esta é esfiha, acho. Pois bem. É preciso ter nascido e morado a vida toda na Santa Casa para entrar e sair. Não foi o caso de Alfredo, que já em 1963 havia sido operado quatro vezes, duas cesarianas. Andando um dia pelo corredor, viu uma luz forte clara e pensando ser a luz do dia, da saída, caiu em um centro cirúrgico já preparado, quando retirou a vesícula. Alguns residentes e estudantes dizem ter visto ou sonhado com Alfredo, já de barbas brancas e um olhar paranóico. Por quê esse olhar paranóico jamais se pôde compreender.
Certa tarde passando pelo corredor depois de uma bem suscedia operação de apêndice, viu da janela sua rua, sua casa na Vila Rubim. Desesperado e estando no segundo andar resolveu arriscar um pulo. Caiu em cima da cama flexível de fisioterapia e aterrissou de volta na mesa de cirurgia do terceiro andar e meio. Quando lhe foi feita a primeira lobotomia. Isso foi, parece, 1964.
Alfredo passou a sentir-se parte do hospital. Nada mais autêntico do que ele naquelas paredes e corredores que tanto podiam dar na cantina quanto na sala de radiografia. Para Alfredo tanto faz. Uma a mais , uma a menos.
Um dia pediu que um acadêmico o acudisse segurando-o pelo braço.
- Como é seu nome - perguntou o estudante
- Afredo
- Mentira. Você não existe.
E foi embora. Já era então 1967
Não vou cansá-lo Pedro Maia. Mas prometo lhe contar esta história em capítulos.
Como eu sei disso?
Sabendo.
Assinado: Alfredo
16 janeiro 2001
pai.vix@terra.com.br
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