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zélia stein
memória(s) de uma outrora
"Edificante Curriola"
by m@riolavirtual
Foi assim que foi, ou o ido se transforma?
Millor Definitivo
Celebro a revolução micro-informática sem a qual não poderia saber quase ao instante o que rola e o que deixa de rolar pela minha terra, Santa Cruz hoje Brasil e, nesse "gigante adormecido em berço esplêndido" o belo, pequenino e enigmático Espirito Santo ------------
desde sempre o maior mistério (e que o Papa nos explique, se é que pode, coitado do Papa! Vive trabalhando!... * Não lhe pecamos
mais! **
* Diz o Millor: Se eu fosse o Papa, vendia tudo e me aposentava!
** Computa, computador, computa ... Não consigo achar o ce cedilha e a humilde voz pe ce cedilha a - terceira pessoa do singular do verbo pedir - vira um mandato para pecar ...
{NT. Classificar o caso na seção Malentendidos Virtuais - teclado em inglês}
Parêntese. Antes de continuar falando do que quer que seja, é preciso se apresentar, correto? Sigo normas ... e acredito que os possíveis e certamente escassos leitores, agradecidos, lotaräo os servidores (IPS) com milhares de cartas celebrantes e/ou imprecantes sobre tão auspicioso evento.
Sou capixaba (e ando cada vez mais curiosa por saber o que significa "ser capixaba", ao contrario do "ser brasileira", identidade esta que está mais e melhor configurada - e confirmada -, para mim).
Nasci no século passado numa aldeia-distrito (logo elevada à categoria de vila, para o qual sem dúvida meu nascimento contribuiu) inserta em aprazível regiäo serrana, refúgio de alemäes e italianos
emigrados-fugitivos das guerras européias, de onde (hoje penso) nunca tinha que ter saído, mas da que saí - levada pela familia, pré-adolescente (eu, claro), para Vitória, logo de uma breve ainda que marcante passagem pela quentissima Colatina.
Em Vitoria morei menos de 10 anos, periodo no qual adolesci-estudei-trabalhei-brinquei seriamente curiosa (e curiosamente seria)
de aprender a auscultar o mundo e opinar sobre o que vivia e via viver.
Tudo me interessava. Do galeto Iate Clube às quintas-feiras
aos bailes sabatinos da FAFI, aos idem domingueiros da Faculdade de Odontologia (lá no alto daquela ladeira), os carnavais do Sirio-Libanês, do Clube Vitória, do Saldanha e quantos mais houvesse e pudéssemos frequentar-estar em Guarapari, Itaparica, Itapoã (um deserto, então), Praia da Costa, Campinho, Nova Almeida ... E, entrementes, o Britz (da Costa Pereira) no final do expediente, o estudar francês na Alliance (cuja única sede estava ai na cercania do näo se ainda existente Hotel Sagres, na Gerônimo Monteiro), ou
inglês na academia do Paulo mentirinha, que ficava no terceiro ou quarto andar do edificio da Livraria Ancora.
Claro que a Praça Oito era "o centro" e, na paralela Nestor Gomes, a Livraria Ancora era uma verdadeira salvaçäo para os sedentos de conhecimento-novidades mas escassos de cash, como via de regra constava no curriculo da maioria dos integrantes da edificante curriola (para usar a expressäo inventada pela fértil-ferozmente sibilina e omnifuncional militante do nem a favor nem em contra, muito antes pelo contrário Félia Carmélia
-née Alves de Souza- que a estas alturas deve estar comandando -no paraiso-etéreo-eterno do esquecimento do éter-, junto ao Coracy Coelho Leal-Moysés, Anginha Von Rondon, Solano, Carlos Chenier Magalhäes, e alguns outros anônimos capixabas - aos que sempre procurava dar nome e conferir identidade de criadores, cujo mínimo denominador comum era o gosto pela ironia -, comandando uma formidável e infindável festa do non sense per omnia secula seculorum ... ).
O que faz e fez dessa edificante curriola dos anos 60 uma verdadeira curiosidade sociológica, a meu ver, foi a heterogeneidade de seus componentes no que tem a ver com idade, gênero, cor de pele, ideologia (pasmem!), preferências sexuais e outras escolhas individuais e
(outra vez, pasmem!) origem social. Havia integrantes da curriola (que, para ser mais precisos, nao se constituia apenas de um grupo senão de tres ou quatro, sendo que alguns personagens transitavam por todos eles,
como foi o caso da Félia que, por isso mesmo, como alguns poucos outros, se transformaram em centro de referência para todos) que moravam em Paul, Cariacica, pobres pensöes do Centro. Outros habitavam sólidas casas e até mesmo mansöes do Centro, Praia do Suá, Praia do Canto, Vila Velha. Alguns, como a Félia, näo tinham moradia fixa. Eram ambulantes perpétuos. Mas sempre encontravam algum amigo ou amiga que lhe dava teto, uísque ou caninha, e conversa da boa antes de dormir ou depois de acordar. Alguns -pouquissimos- tinham carro. A maioria não tinha nem para o ônibus. Mas sempre conseguia carona. Ninguém voltava a pé para casa. Mesmo porque nem sempre era à casa que se voltava. Principalmente nas sextas e sábados.
A única cláusula passível de exclusäo de membro-participante ativo da edificante curriola era, no campo ideológico, ser "defensor do status quo" que, na época como agora, procurava legitimar o que nao pode nem deve ser nunca legitimado: a exclusão social. Praticar esse conservadorismo reles era, de fato, uma barreira de entrada, mas mesmo assim só e quando a pessoa portadora de tal vírus assumia uma atitude militante-beligerante de desafio em defesa dessa ignominia. Pois, na realidade vivida, conviviamos com mais de um conservador liberal-democrata.
Entendiamos e defendiamos a democracia como um principio de inclusão social para cuja realização era (e continua sendo) fundamental a liberdade de pensamento e o debate amplo e sem censura de todos os assuntos terrenais (que mais humanos nos possam tornar). Quem se der ao trabalho de pesquisar em jornais e revistas da época saberá, com maior precisäo, do que estou falando.
A edificante curriola deixou marcas e rastos inovadores por toda Vitória. De 1960 a 1968 -que é a época da qual posso dar testemunho- não houve cenário que não fosse construido (nem que fosse na intençäo das conversas de botequim) nem assunto proibido que nao fosse tocado
e retrucado, nem dor que não rimasse com humor nem vice que näo virasse versa nem verso que näo virasse conversa, nem conversa fiada que näo virasse outra conversa melhor remunerada.
Dizem as más-linguas que procurávamos imitar comportamentos metropolitanos (e forâneos!). Forâneo, pergunto eu, é um qualificativo que ainda existe? E possível que algo de verdade haja no dito (metropolitano). Mas se verdade o há está em que -na consciência e nos fatos- nos assumiamos como cidadaos do mundo. Universalistas. Internacionalistas. Portadores de futuro. Internacionalistas na intenção de näo ficar olhando o tempo todo só para o próprio umbigo, mas sim olhar o próprio umbigo sim mas a partir (sempre) de uma perspectiva universal comparada. Mesmo porque nossa primeira verdade irrevogável se constituia da observação dos fatos que nos confirmavam sempre o que já pressentíamos como verdade constituinte universal: todo mundo tem umbigo. A consequência deduzível de tal fato primigênio virava imperativo metodológico expresso no reconvertido axioma cartesiano Comparo, logo penso. Na fragilidade da condição humana nos reconhecíamos iguais em todo o universo ... e acreditávamos na possibilidade de fazer com que todo mundo, um dia, chegasse a pensar assim (e atuasse em consequência). Sonhadores dos 60. Intelectuais indomáveis, mas sempre (ou quase sempre) bem humorados, espirituosos, criativos e generosos (na individual e na coletiva). Apostávamos no coletivo! Acreditem meninos. Eu vi!
Chatos, nao! Na edificante curriola nao havia lugar -segunda e última cláusula de exclusäo- para chatos que, como se sabe, säo aqueles que -além de ser "seres que insistem em nos contar seus problemas quando a gente quer contar os nossos"- se caracterizam por (mal falando) pensar que um é somente um agora e por sempre, amém ... que nunca lhes deu na telha perguntar -ou sequer avizorar- porque Einstein
a comecos do seculo XX, quando logo de formular a revolucionária teoria da relatividade (em apenas 15 páginas, senhores), relativizou: é, 2+2 säo 4, por enquanto!...
Chatos eram também (e acho que continuam sendo) os "papagaios de pirata" que insistem em pousar atrás de qualquer luz em qualquer cenário com tal de aparecer na foto. Aqueles que pegam no pé da gente feito bicho de praia ...
Essas säo algumas das memorias m@riolas dos anos 60 em Vitória. Outros terão e têm outras memórias. Täo mais ou täo menos legítimas-verdadeiras que essas. Vivi apaixonadamente essa época, com essa edificante curriola fazendo-difundindo-refazendo pensares-pesares-lugares-amares.
Hoje já näo pergunto mais se é certo mesmo que também morrem os lugares onde fomos felizes ...
Há 32 anos estou fora de Vitória. Volta e meia passava por aí qual fantasma sem bússola no meio do maior calor e, por mais que andasse, por mais que buscasse, näo conseguia encontrar nenhum sinal do centro de nenhuma edificante curriola à qual pensei pertencia e que (ilusäo de juventude!) pensei jamais pereceria (no espirito da cidade). Igualmente, porém, continuava saboreando certos sotaques e estilos que escutava e observava ao caminhar por algumas ruas do centro, nos ônibus, nos táxis (um serviço raro, me parece, na cidade) ...
... encontrar-me passeando em Vitória me fazia me sentir mais só, incomunicada com meu passado, a-histórica histriônica pré-histórica jussárica näo-estacionária, em síntese, fora de época e lugar. Só desejava esquecer qualquer memória ao mesmo tempo que, como robótica, insistia em re-visitar-caminhar certas ruas como a Monjardim Cavalcanti: sim, aquela mesma onde está (estava?) a mansäo dos idem, berço de nascimento da Maysa (de sobrenome primeiro nobre e capixaba Monjardim ao que agregou depois o também nobre mas paulistano e mais célebre Mattarazzo), onde morava o Mário Ruy (bateria), vizinho do admirado e admirável articulista-escritor-jornalista Alvino Gatti, que me apresentou, entre outros, a Alberto Morávia, Curzio Malaparte, e alguns sonetos do Dante Allighieri.
Tentar passear pelo calçadäo do velho cais, ver o Péla Macaco, a pedra do Penedo fincada no meio do mar. A escadaria Maria Ortiz, onde se inaugurou o primeiro Panela de Barro. E outras experiências turísticas tão desprovidas de sentido atual como essas, mas que näo podia deixar de
"cometer" cada vez que passava um ou dois dias pela capital, a caminho do interior.
Na serra ou na praia, no interior, volto a me encontrar. Em paz e contente. Então, "egoistamente" pensava que näo devia contar prá ninguém sobre essa paz e essa "contentura", para tentar evitar assim botar curiosidade na cabeça daqueles que sempre andam procurando novos lugares para "turistear" e, em um par de anos, se terminassem liquidando também esses remansos exclusivos nos quais, em sério, para que se conserve a paz e a beleza, a harmonia natural entre a gente e a paisagem, só cabem bem poucos, porque senão correm risco de extinçäo. Como vêem, meu sentimento-pensamento näo era täo egoísta assim.
Ironicamente, porém, agora que as conexöes telemáticas estäo na ordem-do-dia de qualquer cidadão (que ganhe pelo menos mais de 10 salários-mínimos, suponho e espero que o suposto esteja errado), posso estar-passear-ver-sentir-quase estar reallllmente melhor em Vitória, porém, melhor ainda, viajar por quase todo o Espirito Santo, levada pelas descriçöes-narraçöes-amealhações amenas, serenas e agudas do Arlindo e outros, que näo conheço pessoalmente mas que pressinto jovens (nem que seja de espirito), ativos, criativos, indagativos, imprecatórios, que com sadia ironia vão procurando construir outro centro sem centro, e que me mostram a volta do espirito da edificante curriola a pairar sob o céu e sobre o solo capixaba, entronizada e entronizante no mundo mas com os pés bem plantados em sua terra, adorada "salve, salve!"
A essa nova edificante curriola que marca presença na http://www.revysta.com e que também incursiona pela http://www.capixabaon.com/século meu obrigada por me trazer de volta a esperança de pertencer a uma coletividade que se re-pensa e, portanto, se re-cria no próprio processo de buscar se re-conhecer em sua história passada para näo se enganar nos passos presentes que devem marcar os novos senderos de futuros. Obrigada e parabéns. Um dia a gente se encontra pela aí.
21 maio 2000
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